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Integrantes do AC/DC falam dos dramas que antecederam o disco 'Rock or Bust'

Álbum tem batida forte que é a marca registrada de antecessores

Gary Graff - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2014 | 02h04

Simplicidade cai bem para o AC/DC. A música da banda australiana é espartana e muscular, construída sobre riffs circulares de guitarra e uma batida demolidora. Há toques sagazes, mas pouca coisa em termos de adornos exóticos e gordura supérflua. É decididamente uma marca de hard rock básico, leve nos acompanhamentos.

Foi apropriado, portanto, que o guitarrista Angus Young e o baixista Cliff Williams dispensassem roupas sofisticadas quando se sentaram para discutir o novo álbum do AC/DC, Rock or Bust, lançado no início do mês, numa suíte de bom gosto, mas modesta, no Península Hotel em Nova York. Em vez do traje de escolar das apresentações que é sua marca registrada, Young vestia uma camisa de manga comprida e gola redonda, enquanto Williams usava uma camisa de gola. Os dois vestiam calça jeans e tênis.

Em suma, pareciam dois caras de uma banda de bar e não astros do rock que venderam mais de 200 milhões de discos.

Rock or Bust, que tem toda a urgência da batida forte que é a marca registrada de seus antecessores, a maioria deles ganhadora de platina, é o primeiro álbum do AC/DC em seis anos. O grupo espaçou os discos desde o início dos anos 1990, e a passagem do tempo não é algo de que seus membros falem muito.

"Particularmente depois da última turnê (2008-2010), foi bom dar uma parada", disse Williams, 64 anos. "Definitivamente, o tempo passa, mas parece que não vai muito longe."

Malcolm Young, irmão mais velho de Angus e cofundador do AC/DC, está fora da banda, em tratamento de demência numa instituição na Austrália.

O sobrinho Steve Young, dos Youngs, que o substituiu numa turnê em 1988 quando Malcom tratava-se do alcoolismo, assumiu seu lugar.

Depois, o baterista Phil Rudd foi preso na Nova Zelândia, acusado de "contratar assassinos" e de portar drogas. Não foi uma boa notícia na véspera do lançamento do novo álbum, com uma planejada turnê mundial na sequência. Algumas bandas poderiam ter jogado a toalha depois disso, mas Angus Young diz que essa ideia nunca lhe passou pela cabeça.

"A banda tem sido assim desde o começo", disse. "Foi sempre na base do vai ou racha." Vale lembrar que esta é a formação que, após a morte do cantor Bon Scott, lançou o álbum mais vendido, Black in Black (1980), apenas cinco meses depois.

"Mesmo quando a gente era mais jovem, tocando num bar, clube ou algo assim, mantinha sempre esta atitude, 'Nós temos que fazer isto. Temos que ganhar aquelas pessoas. Nós não desistimos'. E o próprio Mal, quando soube que era hora de parar, disse: 'Vocês façam isso. Vão em frente'", disse o guitarrista. "Ele quer que a banda continue."

Seu irmão começou a mostrar os primeiros sinais de demência durante as sessões para Black Ice (2008), disse Young, que é o mais novo de oito filhos nascidos em Glasgow, Escócia. Em 1963, a família emigrou para a Austrália, onde o irmão mais velho, George Young, fazia sucesso com sua banda, os Easybeats, e também foi um dos primeiros produtores do AC/DC.

"Aí (Malcolm) foi diagnosticado na época, e eles disseram que ele sofria de encolhimento do cérebro", prosseguiu Young. "Aí o próprio Mal disse: 'Sabem, se vamos gravar um disco, então é melhor fazer logo'. Eu disse: 'Tem certeza de que quer fazer isso?' E ele respondeu: 'Tenho, vamos em frente'. Foi o mesmo com as turnês." O Young mais velho aguentou durante a turnê. Depois, porém, sua condição mental se deteriorou, e ele também teve de combater um câncer de pulmão e problemas cardíacos.

"Foi como se tudo o atingisse ao mesmo tempo", disse Young. "Ele tocava o barco do jeito que dava. Continuou escrevendo até não conseguir mais. Nós tínhamos esperança de que ele melhorasse, mas infelizmente não foi assim." Malcolm Young ainda tem o crédito de coautoria na maioria das 11 músicas de Rock or Bust, que, segundo Angus, vieram de riffs e ideias em que os dois trabalharam juntos.

"Cada álbum é assim um pouco do passado, um pouco do novo", explicou Young. "Nós sempre escrevemos músicas assim." Steve Young, o filho do irmão mais velho de Young, Stephen Young, de 57 anos, entrou como substituto na guitarra.

"Ele simplesmente se ligou no que nós estávamos fazendo", disse Angus. "Ele é da mesma época que o Malcolm e eu, de modo que nós todos crescemos juntos, e (Stevie) imitou o tipo de estilo de ritmo que Mal toca. Quando eles se sentavam juntos, os dois ficavam em sincronia. Não dava para diferenciá-los." O AC/DC se reuniu no Warehouse Studio em Vancouver para fazer Rock or Bust com o produtor Brendan O'Brien que também dirigiu Black Ice. Embora as sessões fossem rápidas e em geral tranquilas, segundo Young e Williams, os problemas com Rudd já estavam aflorando.

"Nós tivemos problemas com ele", admitiu Young. "Era difícil fazê-lo gravar, trazê-lo para lá. Não quero implicar com ele - é um cara muito talentoso, e nós estamos juntos há muito tempo. Mas acho que ele se descolou um pouco. Estava dificultando as coisas. Se você vai fazer uma coisa, tem de ser confiável." Rudd ainda não foi chutado do AC/DC por enquanto, mas os tribunais da Nova Zelândia poderão transformar isso num ponto discutível em breve.

"É triste", disse Young. "Quando você o vê naquele espaço, é triste. Mas nós estamos comprometidos em ir em frente. É o principal para nós." "E além disso, o sujeito tem de estar em condição de tocar o barco", prosseguiu o guitarrista. "Não queremos ficar nesta situação de cancelar coisas porque, se você monta um bocado de coisas, não quer que alguém diga. 'Ah, talvez eu vá lá, talvez não'." "Cabe a ele escolher se quer sair", acrescentou William. "Não podemos fazer isso por ele. Está nas mãos dele." Seja como for, o AC/DC vai seguir em frente. É grande a expectativa dos fãs por Rock or Bust, e ela foi intensificada pelo uso do single Play Ball como parte das transmissões da Major League Baseball, em outubro.

Um sobrinho executou o álbum para Malcom Young que, disse o irmão, "sorriu e deu risada" enquanto ouvia.

A turnê de 2015 cobrirá o globo, e Young prometeu um espetáculo na linha de outras produções extravagantes do AC/DC.

"Acho que você tem que aparecer com uma coisa com bom visual", disse o guitarrista, que pretende vestir novamente a roupa de escolar. "Às vezes você pensa, 'Bem, será que eles querem uma coisa espalhafatosa ou uma coisa mais simplesinha?' Mas se você vai tocar num lugar grande, tem que fazer um grande espalhafato, eu acho." "Você quer que as pessoas saiam achando que aquilo valeu o dinheiro que elas pagaram." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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