Integral de Padre Vieira

Saem hoje 3 dos 31 volumes da obra completa do escritor, composta por professias, sermões, cartas e poesia

Jair Rattner, de Lisboa, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2013 | 02h10

Passados 315 anos após a sua morte, o maior escritor do barroco de língua portuguesa vai ter uma edição do conjunto de sua obra. Hoje serão apresentados os primeiros três primeiros volumes da obra completa do Padre Antônio Vieira, dois com A Chave dos Profetas e o terceiro com as cartas diplomáticas.

A edição, organizada pelos professores portugueses José Franco e Pedro Calafate, terá 31 volumes - 30 com os escritos de Vieira e um dicionário sobre o escritor, que foi chamado por Fernando Pessoa de Imperador da Língua Portuguesa. Os 31 livros, com mais de 15 mil páginas, serão lançados este ano e o próximo pela editora portuguesa Círculo dos Leitores. Além dos sermões, o trabalho inclui a obra profética, as cartas e as poesias escritas por Vieira.

"Estamos a realizar o maior projeto editorial da língua portuguesa", comenta Franco. Ele conta que já houve 15 projetos para editar as obras completas de Vieira, todos eles fracassados. "A primeira tentativa foi em 1851", relata.

Franco atribui os fracassos ao fato de as equipes que realizaram o trabalho serem muito pequenas e ao custo do projeto. Para editar a obra completa, ele reuniu uma equipe de 52 pessoas, com 32 especialistas e 20 pesquisadores. "Temos especialistas em literatura, linguística, latim, paleografia, teologia, direito, filosofia, história e diplomacia."

Entre os especialistas que fazem parte do projeto, sete são brasileiros: João Adolfo Hansen e Adma Muhana, da USP, Alcir Pécora, da Unicamp, Ana Lúcia Oliveira, da UERJ, Valmir Muraro, da Federal de Santa Catarina, João Bortolanza, da Federal de Uberlândia, e Antônio Guimarães Pinto, da Federal do Amazonas. Ele conta por que ter especialistas dos dois países: "Vieira é uma figura que faz a ponte entre Portugal e o Brasil".

Atualização. A opção editorial foi de realizar uma edição com grafia atualizada. "Não é edição crítica clássica. Trata-se de uma obra feita com rigor que pode ser lida pelo grande público. Inclui tudo o que Vieira escreveu, tudo o que foi atribuído a Vieira. Cotejamos mais de 20 mil páginas", afirma Franco.

Para realizar o estudo além dos livros e manuscritos existentes em Portugal e no Brasil, foram consultadas bibliotecas na Holanda, França, Itália, Alemanha e México, que têm originais de Vieira. Os países europeus estão ligados à atividade diplomática de Vieira.

Em relação ao México, o país tem originais por causa de uma homenagem feita a Vieira quando ainda estava vivo. "Em 1681, a Universidade do México dedicou suas Conclusões, que eram o fim do curso, ao padre Vieira. Foi o ano em que Vieira saiu de Portugal e os estudantes da Universidade de Coimbra queimaram a figura de Vieira em efígie. Ele chegou a comentar que enquanto em Portugal pediam sua morte, no México foi considerado o maior pregador da Cristandade", relata Pedro Calafate. Nessa época, Vieira teve uma disputa teológica com a mexicana soror Juana Inez de La Cruz.

Inéditos. Entre os textos a serem publicados, existem muitos que serão impressos pela primeira vez. "No processo de recolha encontramos mais de 4 mil páginas de inéditos e mais de 5 mil fólios de inéditos", relata Franco. Para a edição, foi necessário realizar a tradução de mais de 3 mil páginas do latim.

Segundo Calafate, os textos ajudam a mostrar o que pensava Vieira, que era uma pessoa muito à frente de seu tempo. Ele dá como exemplo o Voto Sobre as Dúvidas dos Moradores de S. Paulo, de 1693, em que colocava os índios como iguais aos brancos: "Assim como o espanhol ou genovês cativo em Argel é contudo vassalo do seu rei e da sua república, assim o não deixa de ser o índio, posto que forçado e cativo, como membro que é do corpo e cabeça política da sua nação, importando igualmente para a soberania e liberdade, tanto a coroa de penas como a de ouro, e tanto o arco como o ceptro."

Segundo Calafate, outra posição filosófica de Vieira diferente da majoritária em seu tempo foi a de negar a visão aristotélica de servidão natural dos negros, que considerava os não brancos como criados para ser escravos. Ele cita o Sermão do Rosário XVII: "Não posso entender que Deus, que criou estes homens tanto à sua imagem e semelhança, como os demais, os predestinasse para dois infernos, um nesta vida, outro na outra. Se a fortuna os fez escravos, a natureza fê-los homens".

Financiamento. O projeto só foi possível com financiamento da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa - instituição que tem o monopólio em Portugal dos jogos de azar, que no Brasil são organizados pela Caixa Econômica Federal. No total, a Santa Casa deu apoio de 500 mil para a edição. "Parece muito, mas só em traduções do latim tivemos de pagar mais de 100 mil. Uma segunda parte, com dicionário multimídia, uma obra seleta a ser publicada em oito línguas deverá sair por mais 500 mil, se encontrarmos financiador", afirma Franco.

O objetivo é publicar esse volume extra em japonês, mandarim, francês, inglês, russo, espanhol, polonês e alemão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.