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Instrumentos

Se você estranha a violência com que o baterista às vezes toca é porque ele já está pensando no trabalho que terá para desmontar seu instrumento

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2020 | 03h00

Discute-se qual é o melhor, o baixo acústico ou o baixo elétrico, que se segura como uma guitarra. O baixo elétrico é mais leve e mais fácil de carregar, mas o baixo acústico, daquele tamanho, é sempre um companheiro com quem você pode conversar, mesmo que ele nunca responda. E você jamais terá com um baixo elétrico a mesma intimidade que tem com o baixo acústico, como dedilhar a sua cabeça com uma mão enquanto faz cócegas na sua barriga com a outra. Em certas situações o baixo acústico substitui a amante ou o amante e passa a noite inteira roçando a sua perna – com a vantagem que nas viagens de avião você pode despachar o baixo acústico no compartimento de bagagens, coisa que jamais faria com sua mulher ou seu marido. 

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Se você estranha a violência com que o baterista às vezes toca é porque ele já está pensando no trabalho que terá para desmontar seu instrumento, enquanto o flautista, por exemplo, guarda a sua flauta no estojo em dois minutos e vai tomar um chope com a banda, e ainda lhe dá um tchau irônico. 

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O maior instrumento conhecido é o órgão de uma pequena cidade no interior da França tão poderoso que, da primeira e última vez em que foi tocado, deixou a igreja de pé, mas destruiu toda a cidade à sua volta. A cidade está sendo reconstruída como atração turística e os restos do organista estão sendo retirados, pouco a pouco, de dentro do órgão.

Os menores instrumentos do mundo são, na ordem regressiva, a harmônica, ou gaitinha de boca, o pífaro ou piccolo, que é uma espécie de filhote de flauta, e aquela folha que a gente arrancava de certas árvores da adolescência que não existem mais, dobrava, levava à boca, assoprava e produzia um som aproximado de trompete com surdina, fingindo que era o Miles Davis. A principal característica dos instrumentos menores é que podem ser carregados no bolso da camisa – para raiva do baterista.

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A família dos saxofones vai do sax barítono, que, só pelo tamanho, exerce uma espécie de autoridade moral sobre o resto do naipe e cuja nota mais baixa é tão baixa que só pode ser tocada com autorização da Saúde Pública, ao sax alto, passando pelo sax tenor e pelo sax soprano. O som do sax tenor é o que mais se aproxima da voz humana, tanto que é comum o músico encerrar um solo de tenor e ouvir a pergunta: “O que você quis dizer com isso?”. 

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E chegamos ao trombone de vara, o instrumento que mais cria caso numa orquestra. A vara do trombone se estende por uma boa distância e é praxe os trombonistas sentarem atrás dos saxofonistas, e é inevitável que, volta e meia, uma vara de trombone acerte a nuca de um saxofonista à sua frente. O saxofonista reage, e está armada a confusão, que vira guerra, com instrumentos sendo usados como armas, de nada adiantando os pedidos repetidos de calma do sax barítono.

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Faltou o piano. Mas todo o mundo sabe que o piano não é um instrumento, o piano é um mundo. 

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