Instituto Tomie Ohtake traz exposição de Flavio-Shiró

Ao mesmo tempo, local exibe mostra 'Fábio Miguez - Temas e Variações', com pinturas criadas pelo pintor

Camila Molina, de O Estado de S. Paulo,

21 de agosto de 2008 | 16h44

Na primeira sala da exposição Flavio-Shiró, Pintor de Três Mundos: 65 Anos de Trajetória, o artista, prestes a fazer 80 anos (no próximo dia 27), afirma que 90% daquelas obras nunca foram expostas antes. "Aqui é meu recanto da memória", brinca Shiró, que se divide, desde a década de 1950, entre o Rio de Janeiro e Paris. Naquele espaço de sua mostra está a primeira pintura que o artista realizou, Praça da Sé Vista da Rua Fagundes, de 1942 - feita depois de ganhar uma caixa de tintas do amigo Higaki. Mas há também um conjunto expressivo de paisagens e retratos, datados das décadas de 1940 e 50 e realizados em São Paulo e no Rio, fotografias e desenhos que tratam de seus antepassados e de suas passagens pelo mundo. Veja também:Galeria com fotos das exposições   Nascido em Sapporo, em 1928, Shiró chegou ao Brasil em 1932. Primeiro, instalou-se com sua família numa colônia japonesa em Tomé-Açu, no Pará, depois, mudou-se para São Paulo. Como ele diz e como vemos nas obras da primeira sala de sua mostra, sua visão não era apenas a de um imigrante, mas de alguém já interessado em trilhar caminhos mais ousados com sua pintura. Dessa maneira, a tela Paisagem Imaginária (1946), feita em São Paulo, já carrega traços fortes e gestuais, assim como o quadro A Noite (1950), criado no Rio e representando a Lua por detrás de um andaime, já revela a busca do abstracionismo do qual "a gente tinha pouca idéia na época", afirma o artista. "O tema por vezes é diluído, por outras, aparece. É da natureza da arte não ser definido, o sentido da aventura que é necessário", diz Shiró, que depois ficou marcado pelas pinturas da década de 1960 em que a figuração se fundia à força do gesto e da matéria. A mostra no Instituto Tomie Ohtake, com cerca de 250 obras de Flavio-Shiró e com curadoria de Paulo Herkenhoff, é uma oportunidade rara de se ver todo o percurso de criação de um artista. Como afirma o curador, foram mais de dois anos de realização dessa exposição e nela vão se percebendo, intrínsecos nas obras, volta e outra, os três mundos ou elementos que fundaram sua arte: a chegada ao Brasil e suas visões na Amazônia - os traços fortes inspirados nos cipós e raízes - e a fusão de tudo em sua vivência na França. "Acredito até que Iberê Camargo viu aquele gesto audacioso do período abstrato-informal de Shiró com aquela viscosidade de massas para realizar suas obras da década de 1960 (o curador já afirmou ser o momento em que o artista gaúcho parecia ‘descarnar um ser vivo’ na tela). Depois, aquela relação figural que emerge nos anos 70 e 80 na produção coincide com a volta à figuração de Iberê depois que ele cometeu o homicídio", teoriza o curador. Vemos, portanto, um Shiró eclético - que também se dedicou à fotografia -, mas que nunca deixou um mesmo veio de atividade baseada na preocupação com a forma orgânica e o visceral - há obras realizadas até 2008 na exposição. Ao mesmo tempo, o Instituto Tomie Ohtake exibe a mostra Fábio Miguez - Temas e Variações, com pinturas sobre tela e papel e objetos criados pelo pintor. Miguez, artista que participou do grupo da Casa 7 nos anos 80, propõe um jogo incessante para o olhar em que as formas ficam em aberto - e é um exercício interessante para o espectador juntar o terreno virtual da pintura com a possibilidade concreta do objeto.

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