Instituto Tomie Ohtake exibe obras de Artur Lescher

O que interessa ao escultor Artur Lescher é a maneira como diferentes materiais podem se articular numa obra, assumirem papéis próprios dentro de um mesmo campo e, ao mesmo tempo, se relacionarem de uma forma muito precisa. Quando convidado a participar da atual edição do projeto educativo Criatividade: Ação e Pensamento, realizado por meio de uma parceria entre o Instituto Tomie Ohtake e a Fundação Carlos Chagas, no qual alunos do ensino médio têm a oportunidade de aprender durante quase um semestre sobre o universo de criação de um artista e criarem suas obras, Lescher não se prendeu a falar de escultura em si, mas justamente do sutil ponto em que a junção de matérias distintas podem "gerar significados". Na mostra que ele inaugura nesta quarta-feira no Instituto Tomie Ohtake estão três de seus trabalhos que tão bem explicitam essa questão.Sempre é inevitável falar do rigor impecável das criações desse artista paulistano, sejam elas peças escultóricas autônomas, como as de madeira polida nas formas elípticas ou pontiagudas, por exemplo, que ele já tanto exibiu; sejam elas instalações feitas com matérias diversas. No hall do piso inferior do Instituto Tomie Ohtake já recebe o visitante uma obra que se encaixa nesse segundo grupo: Daqui para mais Além, apresentada no ano passado no segmento Da Escultura à Instalação da 5.ª Bienal do Mercosul.À primeira vista chama aos olhos a beleza da cor do amplo campo de saibro (mistura de argila, pó de telha arenosa e pequeninos pedregulhos) construído sobre o chão. Dentro desse campo, dois grandes carretéis de fios de aço estão interligados e de cada deles saem espécies diferentes de garras, transformando-os em "máquinas desenhadoras", como diz o artista. "De certo modo, esse é um trabalho de desenho", afirma Lescher. Porque de alguma maneira, aquelas máquinas, apesar de paradas, parecem estar a um passo de começarem a traçar o arado de saibro com suas pontas - essa é a narrativa proposta pelo artista. Mas, diante da obra por poucos instantes, percebe-se que o momento dessa ação está congelado, o desenho que ocorreria se transforma em "potência do desenho". "Há uma concentração e distensão nesse trabalho e gosto da idéia de esse ser um campo que não pertence a esse lugar, que foi construído e que constrói as relações para dentro dele, como no desenho ou na pintura", diz Lescher.Dentro desse campo constroem-se, curiosamente, relações de oposições. Apesar da certa agressividade incutida no caráter das "máquinas desenhadoras" - elas têm garras prestes a fincar e arranhar aquele lote - o próprio campo de saibro "apaga o que há de hostil nas peças", ele "parece ser um pó que flutua sobre o chão, uma superfície aveludada para o olho, suave, como uma pintura", como afirma o artista. Ao mesmo tempo, em cada um dos carretéis as garras são diferentes: uma é mais clara e polida (como um sismógrafo), a outra, mais rústica e escura (como peça de arar, "mais agrícola").Já em uma das salas Artur Lescher exibe uma versão inédita da série Rios, criada neste ano e já apresentada em mostra na Galeria Nara Roesler. No próprio título da série está contida a metáfora da água, da fluidez, buscada pelo artista. "A fluidez não é uma questão nova no meu trabalho, já trabalhei peças em que usei azeite, mercúrio, o líquido. Poderia dizer que agora está mais explícito", diz o artista. Na sala, com baixa luminosidade, estão duas grandes bobinas suspensas com rolos de cerca de 10 mil metros de papel. Delas o papel sai e percorre o chão, sobe as paredes sugerindo um fluxo - "de idéias, narrativas, um discurso." Mas, mais uma vez, é a alusão de um movimento "articulado com o espaço", entretanto, um momento congelado. E, mais uma vez, está outra questão recorrente na produção de Lescher, a de "tirar a gravidade", ou seja, a de construir uma situação em que tudo fica em suspensão. À frente das bobinas a sala é cortada por um caminho feito com vidro preto que espelha o "fluido" e pode ser atravessado pelo visitante.Por fim, na última sala de sua exposição está a obra Plasmatium, feita em parceria com Gabriela Greeb. Na parede está projetado o vídeo em que uma mulher pisa sobre uma superfície instável aquosa e dela reverberam singelas ondas. No chão da sala está um colchão azul de água formando uma espécie de duplo: o espectador poderá caminhar sobre a superfície também, "um movimento provoca o outro", como diz o artista, se amplifica. A fluidez está totalmente explícita. Artur Lescher. Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201 (entrada pela Rua Coropés), 2245-1900. 3.ª a dom., 11 às 20 h. Até 13/8. Abertura hoje para convidados

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