Instável jogo de poder

Mostra de Berlim começou ontem com Les Adieux a la Reine, de Benoît Jacquot, que fala sobre Luis XVI, mas lembra muito o século 21

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL /BERLIM, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h12

Como todo presidente de júri, o inglês Mike Leigh, de Segredos e Mentiras e O Segredo de Vera Drake, foi diplomático. Ele disse ontem na coletiva do júri que espera ser surpreendido, que a preocupação social e política tem de estar atrelada à estética, etc. Bem no finalzinho, Leigh, afinal, disse alguma coisa interessante. Ele vê na seleção de Berlim a prova de que Hollywood não está mais dando as cartas. Onde? Na Berlinale, no mundo? Leigh não perde por esperar. Este festival vai parar quando Angelina Jolie, o suprassumo de Hollywood, colocar os pés na Berlinale para exibir seu longa de estreia como diretora, In the Land of Blood and Honey.

O 62.º festival começou ontem com Les Adieux à la Reine, O Adeus à Rainha, de Benoît Jacquot. Muita gente saiu perplexa da sala, procurando uma bússola ou uma porta para o entendimento do filme. Jacquot pertence à geração pós-nouvelle vague do cinema francês, mas antecede os neobarrocos (Leos Carax, Jean-Jacques Beinex, etc.). Sua carreira tem sido uma tentativa de equilíbrio entre encomendas e projetos experimentais. A rainha do título é Maria Antonieta e o filme se passa todo em Versalhes. Abre-se na madrugada do célebre 14 de julho de 1789 e prossegue nos dias 15, 16 e 17. Quatro dias que mudaram a França (e o mundo).

Num momento de crise na Europa - e na França, onde o presidente Nicolas Sarkozy vê o socialista François Hollande avançar nas pesquisas para a próxima eleição -, um filme sobre a derrocada do regime, mesmo que seja a monarquia do século 18, termina por apresentar curiosas ressonâncias com a realidade. Jacquot propõe um jogo de espelhos bastante raro. Consegue ser contemporâneo sem a tentação de ser moderninho, como em outro olhar recente sobre Maria Antonieta - a de Sofia Coppola.

Toda a história - e a grande História - é vista pelos olhos da leitora da rainha, Sidonie Laborde, que é vivida por Léa Seydoux. Maria Antonieta, a detestada austríaca, é Diane Kruger. Tudo o que Sidonie deseja é servir Maria Antonieta. Apesar das extravagâncias, a rainha é fiel, até o fim, ao rei, a quem pretende salvar. Mas ela também quer salvar o objeto de seu desejo, Madame de Polignac. Por ela, sacrifica a leitora, exigindo que ela parta numa carruagem com Madame de Polignac (a atriz Virginie Ledoyen), disfarçada de camareira.

O mais curioso é que Sidonie se presta ao papel, e o assume como se fosse a própria Madame de Polignac. O mundo rui, mas o jogo de máscaras mantém uma espécie de farsa que visa a salvaguardar os dedos, mesmo na eventualidade de se irem os anéis. Sidonie, que lida com as palavras, é a perfeita representação da alienação. Serve a todo mundo, e todos se servem dela. O filme é frio, mas mantém um clima de vertigem, cheio de movimentos de câmera e, no desfecho, certa dose de suspense. E se Jacquot, na verdade, estiver falando do Eliseu, o palácio de Sarkozy, mais do que de Versalhes, o de Luis XVI?

O jogo do poder é feito de instabilidade. O diretor Xavier Beauvois, de Homens e Deuses, improvisado em Luis XVI, não entende por que o povo quer tanto o poder que, para ele, sempre foi um fardo. Uma coisa é certa - impossível imaginar coleção mais bela de mulheres. Léa e Virginie aparecem nuas - e o nu frontal da primeira provocou um oooohhhh na plateia -, Diane Kruger nunca esteve melhor como atriz. Ainda é cedo para apostar no que nos reserva essa seleção, mas O Adeus à Rainha foi um bom começo.

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