Instantes de reflexão

Mostra devolve à curadoria a tarefa de propor relações

FELIPE SCOVINO É PROFESSOR ADJUNTO DA ESCOLA DE BELAS ARTES DA UFRJ E CURADOR DA MOSTRA LYGIA CLARK - UMA , RETROSPECTIVA (ITAÚ CULTURAL), O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h09

Iminência das poéticas. Aquele último instante antes da decisão pelo momento pleno de estar no mundo, o momento - que não pode ser definido com precisão - que antecede a maturidade ou o desejo de finalmente se revelar por completo. É neste tempo instável, o estar prestes a acontecer, que a curadoria da 30ª Bienal de São Paulo esteve interessada. E é nesse intervalo, antes do acontecimento, que se revela um olhar mais atento, menos veloz, como se esse segundo, minuto, hora, ano fosse estendido em nome de uma delicadeza, fosse uma situação entre tempos que nos convocasse à suavidade e a singeleza.

São várias as trilhas deixadas pela curadoria, mas vou me ater a essa. O centro nervoso, digamos, da exposição é a obra de Arthur Bispo do Rosário, e logo se faz notar uma presença marcante nessa Bienal: a prática do arquivo como registro e poética do artista. Em Bispo, há formas claras de inventariar o mundo, separadas pelos conjuntos das máquinas, da arquitetura, das roupas, dos utensílios domésticos, entre outros temas. A artesania presente na palavra que ele mesmo bordava em suas obras revela um discurso sensível e simultaneamente profético sobre o mundo.

É interessante perceber, na seleção feita, a representação de instrumentos de poder na obra de Bispo. Estão lá mantos, cetros de misses e suas faixas. Sua obra é, ao mesmo tempo, eloquente, delicada e perturbadora na sua forma plural de interpretar o mundo. As sinapses que dali irradiam chegam a pontos distantes. A aproximação com Gego é inevitável não apenas pelo uso simbólico e delicado que ambos fazem da linha mas por uma relação fenomenológica que se faz presente nas ideias de leve e pesado, cheio e vazio, presentes na obra dos dois.

A delicadeza encontra par na obra de Fernanda Gomes, que também tem a artesania como método, apesar da sua aparição ao mundo se dar de outra forma. Trilhando um caminho onde silêncio e invisibilidade se mesclam e complementam de forma única, sua obra permite que o vazio seja uma operação de fabricação de lugares. Em uma espiral de silêncios, ela nos conduz para um vazio pleno de significados, no qual, aproveitando-se da própria constituição matérica do chão do Pavilhão, Fernanda Gomes constitui seus territórios. É através dessas supostas falhas e ranhuras, além de fazer com que o branco emita luz e o imaterial revele sua presença, que sua obra converte "erro" e desaparição em uma original estética da delicadeza.

Por meio de um travelling no meio de uma floresta, Modified Camera for 16mm Film (2008 /11), de Daniel Steegmann Mangrané, é outra obra que sintetiza o tema da Bienal. É a espera por algo que nunca se concretiza porque esse algo já está acontecendo. A criação de um suspense ou aguardar por um acontecimento grandioso - mas apenas o que é revelado é a sua iminência. Mangrané, assim como Bispo, auxilia a perturbar a ordem das coisas. Esta condição está em Jirí Kovanda também. Numa articulação entre homem e natureza, ou entre cidadão e espaço público, suas obras efêmeras e quase invisíveis (porque não são anunciadas) discutem a vida normatizada que levamos e a cegueira em relação às inúmeras poéticas que nos cercam, como na obra "XXX. 28 de outubro de 1977, Praga. Eu caminho com cuidado, muito cuidado, como se estivesse andando sobre o gelo que pudesse quebrar a qualquer momento".

A ideia de falha também habita a excelente sala de Bas Jan Ader, ao mesmo tempo em que a delicadeza encontra uma ligação bem sucedida na obra I'm Too Sad to Tell You (1971). A iminência é reduzida a gestos precisos e formas silenciosas nas obras de Allan Kaprow. Ele e Bispo, cada um à sua maneira, incorporam vida e arte, misturam-nas de tal forma que no caso do primeiro o espectador é uma espécie de coautor da obra. O silêncio e a exploração do vazio encontram uma associação perfeita em Companhia (1982) de Kaprow, ao fazer aparecer e logo desaparecer um lugar por meio da relação entre sujeito, passagem de tempo e sua condição no espaço através do uso de blocos de cimento. Em Sigurdur Gudmundsson, outra falha: o estranhamento entre palavra e imagem, entre aquilo que conhecemos e como a/o sentimos. O artista em várias ocasiões concede uma forma (poética) ao imaterial (outro ponto de ligação com Bispo) como em Natureza Morta ou Evento. Nossas certezas sobre o mundo são apagadas diante de suas obras que mesclam ironia e drama.

Conceitos. Com um número adequado de artistas (com as salas atuando como um panorama de suas trajetórias) e uma expografia que conduz o espectador exemplarmente por essas zonas de sensibilização poética (abdicando em alguns momentos de paredes para que o diálogo entre as obras se torne mais evidente), a Bienal foge de uma espetacularização das obras e de conceitos um tanto confusos que vêm ganhando terreno em certas instituições. Em tempos recentes parece-me que a cenografia chega a ter um status tão importante em algumas exposições que em determinados momentos a obra fica em segundo plano, ou ainda que a roleta é sinal de sucesso sem que haja uma preocupação com a qualidade de informação que o espectador recebe, assim como o lúdico e a interatividade parecem prerrogativas para a qualidade da exposição. Neste ponto acho perspicaz que a última obra da Bienal seja o imenso "espelho" de Hans Eijkel Boom, no qual finalmente o público vê a si próprio. O artista retrata as ruas de diferentes cidades do mundo, identificando padrões que usa para criar suas séries de "foto notas". Estão lá, como uma antropologia com acento kitsch, rapazes que usam camisas com estampas de tigre, senhoras com o mesmo padrão de casacos e outras amostras estilísticas. Um arquivo que não tem apelo pelo privado, mas pelo contrário, quer e faz uso do seu caráter público.

O tom "voyeurístico" de Boom estabelece um diálogo preciso com a obra de Alair Gomes, que diversas vezes fotografou de seu apartamento homens se exercitando na praia. Suas fotos nos revelam um arquivo que possui uma velocidade ímpar: as sequências fotográficas aliam um caráter confessional a um ritmo que transmitia movimento àqueles corpos erotizantes. Pouco a pouco, a fotografia nos revela corpos que mais parecem esculturas clássicas, assim como um jogo de entrega entre fotógrafo e fotografado. Outras duas formas de arquivo são as obras de Mark Morrisroe e August Sander.

No primeiro, a rapidez e a espontaneidade da polaroide revelam pouco a pouco como arte e vida se misturam. No início de sua carreira, nos deparamos com jovens nus e extremamente maquiados usando roupas multicoloridas em associação com chapas de raio X (o artista muito jovem teve uma bala alojada nas suas costas); quando descobre que é portador do HIV, seus retratos passam a incorporar uma atmosfera que mescla a cena punk a uma tristeza quase absoluta. Em Sander, o seu arquivo, enciclopédico e antropológico, de mais de cindo décadas organizado por semelhanças físicas, ofícios, posições sociais, revela a sociedade alemã entre a passagem da ascensão de uma burguesia no início do século 20 e uma modernidade prestes a ruir diante do totalitarismo.

O tom obsessivo que perpassa a mostra desses quatro artistas (com exceção de Sander, os outros produziram milhares de fotos) cria uma associação poética e direta com a obra de Bispo. As efetivas formas de aparição das várias qualidades de iminência das poéticas continuam pela Bienal mas as minhas linhas infelizmente precisam terminar por aqui.

Crítica: Felipe Scovino

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