Instalação de Ana Tavarez é familiar e perturbadora

No ano passado, chegaram ao alcance da artista Ana Maria Tavares filmagens realizadas na década de 30 pelo capitão Schenk, da Marinha Mercante alemã. De Hamburgo a Buenos Aires, passando pelo Brasil, o capitão foi registrando com câmera 16 mm situações que aconteciam naquele navio, suas passagens por lugares, um zepelim pelo céu e o mar, o personagem fundamental daqueles registros. Há tempos Ana Maria Tavares trabalha com questões relacionadas ao tema do transporte, do fluxo, a idéia de trânsito, as várias passagens da vida contemporânea. Assim, aqueles filmes que chegaram até ela poderiam muito bem ser incorporados em uma de suas obras. Daquele material bruto, de três horas de duração, foram sendo trabalhadas muitas idéias. Ana Maria conectou aquele material com o nosso mundo. Os embates existenciais dentro daquele navio em alto-mar serviam como metáfora para falar do homem. Além de usar a filmagem, ele incorporou outros elementos. Na sala imensa onde expõe no Instituto Tomie Ohtake, há o filme, com edição especial, sendo projetado na parede; um piso todo em preto-e-branco, como tabuleiro de xadrez; poltronas brancas espalhadas pelo espaço como assentos de ônibus ou de espera de aeroporto; cabines; espelhos na parede oposta de onde o filme é projetado, o que faz multiplicar o espaço trabalhado pela artista; e, somado a tudo isso, uma trilha sonora contruída a partir de sons de um pregão na Bolsa de Mercados & Futuros. Estranhamento é o mínimo que se sente ao entrar naquela sala, naquela trama de elementos. Enigmas de Uma Noite com Midnight Daydreams é o título desse trabalho que Ana Maria criou especialmente para apresentar no Instituto Tomie Ohtake e que marca o nascimento do projeto Criatividade: Ação e Pensamento, realizado em parceria com a Fundação Carlos Chagas. Já estão programadas mais cinco edições com outros artistas, entre eles, Amelia Toledo.Ao entrar na sala, Enigmas de Uma Noite deixa o visitante sem referência. No mínimo, sem referência de tempo. As imagens são de passado, o espelho projeta o futuro. O tempo está em suspensão, o mar se transforma em um "não-lugar". As coisas ali são familiares, mas, ao mesmo tempo, perturbam. As 12 poltronas, espalhadas, são confortáveis, mas simbolizam que aquela experiência será solitária. "São amparo para uma experiência de vertigem", diz a artista.Ana Maria Tavares. Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201, Pinheiros, 6844-1900. 11h/20h. Grátis. Até 5/9. Aberrtura hoje, às 20h.

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