Editora Leya/Divulgação
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Inspiradora passagem brasileira de Elizabeth Bishop

Escritor que vem para a Flip recupera, com delicadeza e riqueza de detalhes, os momentos que a poeta americana viveu no Rio de Janeiro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2011 | 00h00

Entrevista

Michael Sledge

Em novembro de 1951, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop (1911-1979) aportou no Brasil com a intenção de ficar apenas duas semanas, antes de prosseguir viagem. Ficou 15 anos. Nesse período, em que manteve uma relação amorosa com a arquiteta e intelectual Lota de Macedo Soares, livrou-se de uma depressão como também escreveu alguns de seus melhores poemas, algo significativo para uma obra que, apesar de exígua, expressa uma das vozes mais lúcidas da poesia americana contemporânea.

Foi tal relação, desenvolvida durante um conturbado período histórico brasileiro, que motivou o também americano Michael Sledge a escrever A Arte de Esquecer (Leya), misto de romance e biografia que acompanha o período mais fértil da vida de Bishop. Inspirado nas cartas escritas pela poeta, Sledge, que vive na zona rural do México, construiu uma prosa atraente e delicada, eficientemente traduzida pela também escritora Elisa Nazarian.

Elizabeth e Lota formaram um casal singular - enquanto a americana encontrou no Brasil um ambiente pacífico para construir uma poesia que se equilibrava entre a ruptura e a tradição, a brasileira destacava-se pelo espírito inovador (foi uma das principais responsáveis pela construção do Aterro do Flamengo, no Rio), além de ser uma mulher de espírito irascível.

Um dos convidados internacionais da próxima Flip, que acontece entre 6 e 10 de julho em Paraty, Sledge inspirou-se em versos de Camões ("...O dar-vos quanto tenho e quanto posso. / Que quanto mais vos pago, mais vos devo") para escolher o título da obra. Sobre a trama, que teve um final trágico (Lota matou-se no apartamento de Bishop em Nova York, em 1967, dois anos depois da separação delas), o escritor respondeu por e-mail as seguintes perguntas do Estado.

Como foi escrever sem imitar a voz de Elizabeth Bishop?

Vivo na zona rural do México e meu processo de escrita começava assim: primeiro, levava os burros para o pasto. Depois, cuidava da reforma da minha casa, que tem 300 anos. Às vezes, conversava com um vizinho sobre a época da colheita ou sobre os fantasmas que, reza a lenda, povoam minha propriedade. Conto isso porque o ritmo e as aventuras do meu cotidiano são semelhantes aos vividos por Bishop e Lota no seu dia a dia no sítio Samambaia, em Petrópolis - toda essa rica e colorida preparação me permitiu encontrar o ambiente ideal para escrever. A voz do meu romance pouco tem a ver com a poética de Bishop mas muito com sua prosa e cartas. Eu a desenvolvi à medida que me familiarizava com ela. O tom de suas cartas é absolutamente atraente e distinto: caloroso, engraçado, observador, magnetiza o leitor. Não me cansava de ler essas cartas e provavelmente me baseava nelas cerca de vinte vezes ao dia quando escrevia o romance. Já me disseram que falo de forma muito anacrônica, uma espécie de fala dos anos 1950. Talvez por isso eu não tenha tido dificuldade para escrever o livro.

Seria a relação de Lota e Elizabeth o principal tema do livro?

Pode um livro sobre uma poeta ter um tema definido? Esse foi meu eterno desafio, dramatizar a vida de uma escritora quando o que nós, autores, fazemos normalmente é chato: sentar-se à frente de um papel em branco. Mas, para ser justo, a vida de Elizabeth e Lota durante aquela época foi repleta de acontecimentos, tanto do ponto de vista pessoal como político. Eu diria que, à primeira vista, o livro conta uma história de amor pois acompanha a relação delas ao longo dos anos. Mas, como é a paixão de duas pessoas conhecidas, me permitiu explorar temas abrangentes, além de apresentar meus argumentos sobre o amor. A relação delas foi comovente e isso alimentou meu desejo de trabalhar nesse livro durante cinco anos.

Claro que ambas tiveram de enfrentar seus próprios demônios e lidar com fases obscuras. Elizabeth teve um início de vida extremamente difícil. O pai morreu quando ela ainda era bebê e a mãe foi enviada para uma instituição para doentes mentais. Viveu com vários parentes durante a infância e via a si mesma como uma doente. O que mais admiro em Elizabeth é sua persistência: continuou a escrever poemas belíssimos apesar das dificuldades. Lota ajudou-a a se sentir segura, amada. A vida de Lota não é tão bem documentada como a de Elizabeth; assim, precisei acrescentar minhas próprias teorias sobre sua eterna obstinação e sobre aquela dor no espírito da qual jamais se livrava. Elizabeth também a ajudou muito. Na melhor das hipóteses, elas combinavam bastante. Eram também mulheres talentosas - criativas, contraditórias, dinâmicas - que viviam um momento dramático da história brasileira, tanto cultural como politicamente, o que reforçava o fato de suas vidas interiores serem complexas e misteriosas.

Foi isso que o incentivou a escrever sobre elas?

Sim. Sempre admirei e estudei o trabalho de Bishop, tanto em prosa como em verso, mas foram suas cartas que me convenceram a escrever o romance. Não foi apenas a beleza de sua escrita, mas o fato de revelar sobre seus anos no Brasil e seu amor por Lota. Foi incrivelmente comovente descobrir que ali não estava uma poeta solteirona que dedicava uma seca paixão pela arte, mas sim uma mulher que, durante 20 anos, viveu um caso de amor na exuberante selva do Brasil. Foi esta história que, com o tempo, adquiriu vida própria em minha imaginação até o ponto que se tornou inevitável explorá-la na ficção.

Em minha pesquisa, li tudo sobre Elizabeth Bishop e o modernismo brasileiro daquela época. Consultei muito os arquivos do Vassar College, manuseando documentos como aquarelas de Elizabeth e a carteira de motorista de Lota. Arrumei então a desculpa de passar muitos meses no Brasil. Eu queria chegar da mesma forma que Elizabeth, sem pistas do que encontraria e sem falar a língua, apenas desfrutando o sabor dos sons e das imagens. Viajei por todos os lugares onde ela e Lota viveram, mas dei liberdade para minha imaginação tapar as lacunas. Por isso, não procurei pelas pessoas que as conheceram. E minha experiência de morar no México me ajudou a entender como é ser completamente estranho em uma terra diferente, de encontrar formas de vida que estão além da nossa compreensão.

Elizabeth Bishop viveu durante 17 anos no Brasil e você mora no México, ambos longe de seu país. Você e ela encontraram o que buscavam?

Quando desembarcou no Brasil, Elizabeth queria escapar de sua autodestruição e infelicidade. Na capa do jornal do ano anterior que trazia consigo, ela havia escrito: "o pior está longe". Não lhe interessava o destino - na verdade, ela pensara antes na Europa mas os horários de navios não lhe serviam. Elizabeth estava fugindo e, além do Brasil, ela descobriu a paz em si mesma. Durante os primeiros 40 anos de sua vida, ela nunca tinha vivido mais de seis meses em qualquer lugar. No Brasil, com Lota, ela se sentiu em casa, sensação que nunca tivera.

Estranhamente, enquanto eu escrevia sobre ela, minha vida começou a tomar a forma de vida de Elizabeth Bishop. Também me mudei para a América Latina, onde também comecei a viver em uma casa em construção aberta para pássaros e animais. E também me envolvi com uma pessoa sul-americana extremamente criativa e disposta. Finalmente, eu e Elizabeth tivemos nossos burros atacados por morcegos. São muitas coincidências estranhas.

Se encontrei o que buscava no México? Descobri uma vida cotidiana repleta de poesia, beleza e surpresas, algo que não se vê no norte do continente. Também encontrei um caos que às vezes ameaça me deixar louco. Às vezes, acredito que estou tendo um apaixonado caso de amor com esse país; em outros momentos, parece que estou lutando contra a morte. Não sei qual é a diferença. Gostaria de perguntar a Elizabeth.

Por que se inspirou em Camões para dar o título de seu livro?

Tanto Elizabeth como Lota amavam Camões e a dedicatória que ela fez a Lota no livro Problemas de Viagem inspirou-se nesses sonetos:

"... O dar-vos quanto tenho e quanto posso.

Que quanto mais vos pago, mais vos devo".

Foi aí que encontrei o título do livro - embora a edição brasileira tenha preferido outro. É tudo o que sei sobre Camões. A dedicatória expressa a infinita gratidão de Elizabeth por Lota, por ter lhe dado a chance de amar tão profundamente - na verdade, por ter conseguido dar amor e não apenas receber, depois de toda uma existência em que, até a vinda ao Brasil, ela acreditava ser impossível acontecer.

Por acaso Elizabeth Bishop frequentou seus sonhos? Ela também não gostava que se usassem cartas na confecção de livros - chegou a repreender seu colega poeta Robert Lowell por ter feito isso em relação à correspondência da mulher. O que pensa disso?

Enquanto escrevia, eu deduzia diariamente que ela odiaria meu trabalho. Elizabeth detestava poesia confessional, era notadamente reservada e, como disse a Lowell, acreditava ser um ato criminoso utilizar dados da vida particular, inclusive dela própria, em proveito da poesia ou da arte. É uma atitude mercenária, concordo, fazer isso com outra pessoa, mesmo que a justificativa seja "arte".

É nesse ponto que entram os sonhos. Ela realmente me visitou uma série de vezes a fim de questionar meu projeto. "Sobre o que se trata do livro que, me contaram, você está preparando?", ela questionou, levemente cética mas muito crítica. Andamos então de mãos dadas, conversando sobre livros, e Elizabeth foi doce e sentimental. De alguma forma, eu me senti menos ansioso depois disso, pois era como se ela tivesse dado sua aprovação (ainda que fosse um sonho muito oportuno, reconheço).

Era meu objetivo tratá-la com imenso respeito e ternura, ao mesmo tempo em que tentava ser claro e honesto. Não utilizei nenhum detalhe com a finalidade de ser sensacionalista, tampouco apresento qualquer nova descoberta. Pessoas que a conheceram disseram que ela poderia ter gostado do romance, criando leitores para sua poesia. Se isso aconteceu, eu me sinto plenamente recompensado.

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