Inspiração do seu criador persiste, para o bem e para o mal

Análise: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2012 | 02h09

O final de um megaevento sempre pede um balanço. Ainda mais quando se trata de evento especial, como foi a edição de número 36 da Mostra de Cinema em São Paulo. Especial, porque foi a primeira organizada sem a presença física de Leon Cakoff, seu criador e condottiere, morto no ano passado. Apesar de doente, Cakoff ainda imprimiu à mostra anterior a força de sua personalidade. Agora, foi sua colaboradora e viúva, Renata de Almeida, com sua equipe, quem a conduziu. Está em ótimas mãos.

Mas seria exato dizer que a Mostra 2012 se deu sem Cakoff? Ou seria melhor reconhecer que sua concepção de cinema e de organização de evento persistem, indiferentes à transitoriedade humana? Não estão presentes, espalhadas por diversos segmentos da Mostra, os gostos, as crenças pessoais, ousadias e defeitos de Cakoff? Claro que sim. Ou não foi ele quem introduziu esse ecumenismo cinéfilo que abre as telas de São Paulo a filmes de lugares improváveis como Armênia, Aruba e Afeganistão, apenas para ficar na letra "a"? Não foi ele também quem decretou a inexistência de "filmes ruins" na Mostra? Todos seriam bons. Pelo simples fato de ali estarem.

Enfim, são virtudes e idiossincrasias que desenham a alma da Mostra, sua essência. Estão na origem do seu inestimável valor, e igualmente na das suas limitações. Tal como seu criador, a Mostra não é perfeita. Mas tem personalidade forte.

Num cardápio de quase 400 títulos (em longa-metragem, já que os curtas foram abolidos), vimos presente esse grau vertiginoso de diversidade, expresso num panorama internacional bastante amplo. O mais interessante, a razão de ser da Mostra, são os filmes que, de outra forma, não teriam chance de exibição no País. É uma oportunidade de descoberta, que se abre ao aficionado.

Por outro lado, a Mostra foi inchada de pré-estreias. Filmes já comprados e que terão distribuição normal na cidade. Passam na Mostra e estreiam logo em seguida. Para que correr atrás deles, então? Apenas para vê-los antes dos outros?

Já nas retrospectivas, prevaleceu a ousadia. Ao lado do mainstream do cinema de arte, Andrei Tarkovski, vimos um autor japonês pouco badalado, Minoru Shibuya, com alguns filmes muito interessantes. O português Miguel Gomes trouxe um dos títulos mais estimulantes da Mostra, Tabu, e ainda ganhou retrospectiva precoce (é muito jovem). Ótima também a mostra do russo Sergei Loznitsa, de A Neblina. Aliás, o cinéfilo com paladar de gourmet poderia escolher uma ou duas retrospectivas, dedicar-se somente a elas e, com isso, fazer uma extraordinária viagem pelo mundo do cinema.

A rivalidade com o Festival do Rio, e consequente exigência de ineditismo, privou os espectadores paulistanos de obras fundamentais, como o último Alain Resnais, Vou n'Avez Encore Rien Vu, e o vencedor do Festival de Veneza, Pietà, do coreano Kim Ki-duk, Algo a repensar. E, talvez, reservar o ineditismo apenas aos filmes em competição.

Na parte técnica, houve os já habituais problemas com a projeção digital, além de cancelamentos e alterações de horários que tumultuaram a vida de muita gente. O digital será ainda um desafio, até terminar a fase de transição do sistema analógico. Em especial no Brasil, atrasado na digitalização das salas. Por outro lado, a overdose de títulos induz mudanças bruscas de programação, cancelamentos e outros acidentes de percurso. Quem opta pelo gigantismo vive na corda bamba do acaso e o impõe aos outros.

E aí estaria o calcanhar de aquiles da Mostra: a tendência a agigantar-se e a incluir quase tudo em sua programação, sem o pente-fino de uma curadoria mais exigente. Dizer que não existem filmes ruins equivale a dizer que também não existem filmes bons, já que tudo se equivaleria. E, se é difícil e, no limite, impossível separar de maneira definitiva uns dos outros, também é verdade que todo festival do mundo trabalha com um sistema, ainda que imperfeito, de seleção. De eleição de uns e exclusão de outros.

Quem prestou atenção à chamada vox populi ouviu queixas sobre filmes de baixa qualidade, em especial entre os brasileiros. Uma seleção mais rigorosa poderia desagradar a alguns diretores. Mas seria feita em benefício dos espectadores e, em última análise, da própria Mostra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.