Insossa e valiosa

Bienal celebra 60 anos com mostra despersonalizada de estrelas da cena norte-americana

O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2011 | 03h07

A arte já foi valorizada por ser bela, benfeita; já foi admirada por ser crítica ou utópica. Esses atributos - que são alguns dos diversos e nem sempre excludentes paradigmas históricos a partir dos quais as produções artísticas são julgadas - parecem ter sido definitivamente subjugados a um critério bem mais poderoso e aniquilador: o do mercado. Ao menos é essa a sensação que resta ao espectador após percorrer os três andares da exposição Em Nome dos Artistas, mostra que se encerra no domingo e que reúne uma seleção de obras de mais de 50 artistas, pertencente à Coleção Astrup Fearnley, de Oslo, na Noruega.

Organizada para celebrar os 60 anos de criação da instituição mais importante de arte contemporânea do País, a Bienal de São Paulo, a mostra é apresentada como sendo um amplo panorama da arte norte-americana dos últimos 30 anos. Tal explicação é um alívio e ao mesmo tempo razão de grande preocupação: alívio porque a existência de um recorte geográfico específico (relativo mais ao local de circulação dessas obras do que a seu vínculo cultural ou de origem com os EUA) pode ajudar a explicar o caráter redundante e repetitivo das obras expostas. Não é uma surpresa, afinal, que o interesse do mercado mais poderoso e narcísico se volte para obras que reproduzam o brilho vazio da publicidade e pareçam resgatar tardiamente a estratégia a que se dedicou a arte pop, e mais especificamente, Andy Warhol: reler a cultura de massa de forma cínica, oscilando entre um questionamento irônico e uma adesão acrítica ao avassalador império das imagens no capitalismo avançado. Talvez o exemplo mais exacerbado desse rumo seja a produção de Jeff Koons, um dos destaques de Em Nome dos Artistas, com um recorte que vai desde as suas esculturas de aço que se assemelham a balões de criança às cenas de sexo explícito com a sua ex-mulher, também célebre figura midiática, a italiana Cicciolina. Tampouco surpreende que o museu privado norueguês tenha optado pela ênfase na produção recente norte-americana. Afinal, pelas declarações do curador, a Noruega é um país que valoriza muito sua produção local e tem inúmeros mecanismos de estímulo à produção e circulação de suas obras.

Ao mesmo tempo, qual seria a razão de a Fundação Bienal de São Paulo ter optado por um recorte tão restrito, dedicado a um segmento muito particular da produção norte-americana, em uma data importante de celebração? Não seria mais coerente com a história da instituição que seu aniversário fosse celebrado com ênfase seja na produção brasileira que ela tanto estimulou, seja num olhar plural voltado para a arte internacional? A resposta parece estar no fato de que a Bienal não dispõe de força suficiente para montar uma mostra de fôlego, com um foco curatorial próprio, entre duas edições do evento.

O pacote pronto, cedido pelo museu da Noruega, que reúne num mesmo saco os nomes que estão em destaque nos leilões, revistas internacionais e eventos mais midiáticos das artes visuais, parece ter sido o caminho mais confortável - e empobrecedor - de marcar a data e atrair o interesse dos patrocinadores, preocupados antes com sua imagem do que com a qualidade, relevância ou efeito multiplicador daquilo que ajuda a realizar.

A necessidade do espetáculo é responsável por outro grande problema da mostra: sua estrutura espacial. No time selecionado pela curadoria, aparentemente realizada exclusivamente pelo representante do museu norueguês, há uma forte hierarquização: há uma série de artistas pouco conhecidos entre nós, como por exemplo Tom Sachs (que apresenta uma corrosiva releitura da estratégia de grandes marcas, como o McDonald's) ou o hiper-realista Karl Haendel, que recria uma alegoria do mundo contemporâneo em uma perfeita natureza-morta de tupperware desenhado em grafite. E aqueles que estrelam o jet set das artes internacionais, como o já citado Koons, o incontornável Damien Hirst (alçado ao papel de grande estrela da exposição) ou Matthew Barney (este último com uma coleção de relíquias extraídas da cenografia dos filmes da série Creamaster, também exibidos em datas precisas).

Todos eles, no entanto, talvez pela gigantesca valorização dos últimos anos ou pela dificuldade em organizar uma mostra acanhada num pavilhão tão imponente como o da Bienal, estão com miniexposições bem aquém do fascínio que são capazes de exercer junto ao grande público. Curiosamente, o melhor da exposição fica por conta do belo vídeo Fervor, de Shirin Neshat, artista iraniana já conhecida pelo público brasileiro tendo conquistado grande destaque na 25.ª Bienal de São Paulo, em 2002. Ou da seleção de fotos em que Sherrie Levine se retrata como personagens da história da arte.

Além do caráter disperso, da exibição de diversos trabalhos que pecam não por uma presença excessiva ou por tomarem um caminho expressivo equivocado, mas exatamente por não quererem dizer nada (daí talvez a ironia do título adotado para a exposição), chama atenção na mostra a grande frequência de obras que têm por objeto a nudez e a pornografia. Muitas são as salas interditadas para menores de 18 anos, o que parece dificultar o trabalho dos guardas e monitores; salas nas quais o que mais espanta não é o caráter explícito dos trabalhos expostos mas sim a absoluta ausência de qualquer tipo de poesia ou erotismo; obras em que o corpo se torna mais um índice de consumo e um sintoma da banalidade de nossa época.

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