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Insônia

Você se lembra que quando era criança achava que tinha um monstro embaixo da cama

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 02h00

Você já leu tudo que queria ler e o sono não veio. Você já repassou tudo o que fez durante o dia e planejou tudo que fará no dia seguinte e o sono não veio. E o dia seguinte ainda está longe.

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Será que contar carneirinho pulando a cerca funciona? Não funciona. O jeito é pensar em nada. Fechar os olhos e esvaziar o cérebro. Concentrar o pensamento num ponto no exato centro do seu cérebro, depois transportar esse ponto para o exato centro do Universo. Você não é mais você, você é o que existe em torno desse ponto luminoso, no exato centro do Universo. Você é o Universo! Se você abrir os olhos, o Universo vazará pelos seus olhos e inundará seu quarto, sua vizinhança, o país, o mundo... Suas pálpebras são só o que retém o Universo dentro do seu cérebro e o impede de invadir... o Universo. Não abra os olhos, não abra os olhos, não abra os... Você abre os olhos, em pânico. Quem pode dormir com tanta responsabilidade?

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Quem sabe ler mais um pouco? Tanta coisa pra ler... Na verdade, só quem tem insônia tem tempo para ler. É por isso que todo intelectual tem aquela cara de zonzo. Não é cultura, é sono. Intelectual não dorme. Não dorme porque é intelectual ou é intelectual porque não dorme e tem tempo pra ler? Você não sabe. A sua insônia não tem qualquer proveito cultural. A sua insônia é burra.

Você se lembra que quando era criança achava que tinha um monstro embaixo da cama. Quando precisava fazer xixi durante a noite, dava um pulo da cama, pro monstro não pegar seu pé. E na volta dava outro pulo pra cima da cama. O engraçado era que você nunca imaginava que o monstro fosse sair debaixo da cama. Era um monstro terrível, comedor de pé de criança, mas era preguiçooooso...

Hoje, você acha que até seria bom se houvesse mesmo um monstro embaixo da sua cama. Pelo menos alguém para conversar. Trocar reminiscências da infância... Lembra dos pulos que eu dava para cair na cama sem você me pegar? Você e o monstro dariam boas risadas.

Nem precisava ser um monstro. O ideal seria ter um psicanalista embaixo da cama. Alguém que, além de conversar, poderia curar sua insônia.

Quem sabe contar psicanalistas pulando a cerca, como carneirinhos? Lá vai um, lá vão dois, lá vão três... O quarto se recusa a ir porque pertence a uma escola psicanalítica diferente dos outros três. Há uma discussão. Lacanianos contra freudianos ortodoxos. Insultos de parte a parte. Quem pode dormir com um barulho desses?!

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