Inovações múltiplas

Exposição no Rio mostra relação entre sons, palavras e imagens no cinema de Godard

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h11

Pela primeira vez, o público brasileiro poderá ter contato com um perfil ainda mais completo do maior expoente da Nouvelle Vague. O cineasta Jean-Luc Godard é o personagem principal da Expo(r)Godard, mostra gratuita que será inaugurada no dia 7 de maio, no Rio. A exposição traz para o Brasil as produções do cineasta que ficaram de fora do circuito comercial, com filmes menos divulgados e que só passaram em festivais.

As diversas faces do artista serão exploradas em uma programação que inclui, além da exposição, performances, ciclo de palestras com teóricos como Ismail Xavier, Patrick Pessoa e Michael Witt, sessões de filmes e lançamento de livros. A mostra vai ocupar os três andares do Oi Futuro Flamengo. Além de totens interativos e uma mesa-vitrine com um livro confeccionado manualmente pelo próprio diretor, a mostra conta também com uma edição rara da revista Cahiers Du Cinéma nº 300, inteiramente concebida por ele. Há ainda mostras paralelas que incluem sessões de filmes e palestras em diversos espaços.

Para Dominique Païni e Anne Marquez, colaboradores do Centro Pompidou, em Paris, e responsáveis pela curadoria da mostra, essa transposição das salas de cinema para o espaço do museu só é possível porque a obra de Godard traz duas importantes particularidades: a recorrente presença da pintura na técnica e na temática de seus filmes, e a fragmentalidade de suas narrativas. "O objetivo foi sublinhar os grandes traços estilísticos, como por exemplo a sobreimpressão e seu trabalho sobre a escrita", diz Anne.

O inovador artista do século 20 vai buscar influências na Antiguidade clássica e no Romantismo alemão para trabalhar com ruínas e fragmentos. Ele é um cineasta que conta histórias, mas não no sentido narrativo do cinema clássico - mesmo nos longa-metragens produzidos naquele formato standard, cada filme de Godard é feito de momentos curtos. História(s) do Cinema, por exemplo, é uma série de documentários que dá unidade a mais de seis horas de imagens produzidas em vídeo. A coletânea também integrará a exposição. "Godard sempre teve a preocupação de mostrar que o cinema era uma arte de montagem. Ele deixa transparecer isso nos seus filmes", diz Païni, que trabalhou com Godard na concepção da mostra parisiense realizada em 2006 no Pompidou.

Para Païni, a exposição vai mostrar três tópicos muito caras a Godard, e que o cineasta pôde explorar mais a fundo a partir do uso de novas tecnologias como o vídeo e o digital: falar de si próprio, por meio dos autorretratos; fazer história, tanto da arte quanto do cinema; e finalmente ser pintor, porque essas técnicas possibilitaram ao artista construir um ateliê em sua casa e manipular diferentes materiais.

O grande exemplo dessa relação que Godard mantém com a pintura é o filme Passion (1982), que narra a história de um realizador que faz um filme onde todas as cenas são reproduções de obras de grandes mestres europeus. "O que interessa na pintura é em que momento existe a passagem em que ela deixa de ser mimética e de trabalhar com o real, e vice versa". Desde o primeiro longa de Godard, Acossado (1959), baseado em história de François Truffaut, o cineasta já trata da questão da pintura, fazendo referência a Renoir. "Ele sempre procurou a pintura, e disse que os irmãos Lumière foram os últimos impressionistas."

Som e Imagem. Segundo o próprio Godard, todo filme deveria ser visto três vezes: uma só para ouvir o som, a outra para observar as imagens, e uma terceira para juntar os dois. "Ele sempre teve essa obsessão de saber quem tem a precedência, se a palavra ou a imagem. Isso ele persegue sempre, por isso seu filme é a palavra, a imagem, e depois a dialética entre palavra e imagem", diz Païni. Um dos espaços da mostra vai justamente explorar essa relação que o cineasta estabelece com o som. Uma cabine sonora foi instalada para que o espectador aproveite a experiência de somente ouvir o filme. "É uma ideia muito forte na obra de Godard, porque no cinema dele a trilha sonora tem uma verdadeira autonomia", afirma a cocuradora.

Para José Alberto Saraiva, que trabalha com os projetos de cultura do Oi Futuro, a exposição, que ficará em cartaz até o dia 7 de julho, vai trazer também a possibilidade de explorar a investigação da imagem técnica. "Isso inclui cinema, vídeo, fotografia e as imagens eletrônicas e digitais. Nesse caso, Godard é o cineasta ideal pra falar sobre a estrutura e a reflexão sobre a construção de uma imagem técnica", diz Saraiva. "Ele não inclui somente o pensamento do cinema, mas também os outros segmentos de invenção de imagem, como a pintura e a literatura."

Para sintetizar o legado de Godard nesse campo do audiovisual, Païni cita o apreço que o cineasta nutre pelo romancista francês André Malraux, para traçar um paralelo entre um artista e outro. "Malraux foi o primeiro que viu como a fotografia poderia servir para a história da arte, e Godard trabalha do mesmo jeito com o vídeo em relação ao cinema".

Godard continua em plena atividade e segue experimentando novas possibilidades tecnológicas. Atualmente, o cineasta finaliza seu último longa, em 3D, que deverá apresentar no Festival de Cannes.

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