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Inocentes úteis

Como o crime organizado pode influenciar a eleição de 2018 no Brasil?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 02h00

Como o crime organizado pode influenciar a eleição de 2018 no Brasil? Reconhecer o risco é um primeiro passo para prevenir contra o sequestro do nosso sistema eleitoral por traficantes emitindo ordens de presídios. Mas um poder que não recusa apoio do crime organizado pode minar a confiança dos brasileiros na legitimidade da eleição? Esta pergunta é mais opaca, mas a resposta tem consequência igualmente graves.

Na semana passada, uma revista de negócios russa, RBC, publicou uma reportagem investigativa baseada em entrevistas com ex-empregados da usina de trolagem de São Petersburgo, cuja existência foi revelada em 2015. 

O escritório, conhecido pelo nome de Agência de Pesquisa de Internet, emprega internautas para espalhar desinformação online a serviço do Kremlin. O jornalista autor da reportagem, Andrey Zakharov, descobriu que a agência criou 120 contas falsas no Facebook, Twitter e Instagram durante a campanha presidencial americana de 2016. As contas, agora bloqueadas, chegaram a registrar 70 milhões de visitas por semana. O propósito específico não era sabotar a campanha de Hillary Clinton, embora seja claro que esta foi uma estratégia de Vladimir Putin, como ilustra o vazamento de e-mails via Wikileaks.

A tarefa dos funcionários da usina de trolagem era detectar temas que provocam divisão entre os americanos, como porte de arma, direitos LGBT, violência racial e exacerbar hostilidades. Para se ter uma ideia da coordenação sofisticada à distância, os russos criaram a militância laranja: inventaram, por exemplo, um grupo – “BlackMattersUS” – para evocar a organização Black Lives Matters, fundada para denunciar a morte de negros nas mãos da polícia, e organizaram protestos. Cidadãos americanos foram recrutados, sem saber, como participantes dos protestos. Um co-fundador do grupo Occupy Wall Street não desconfiou quando um agente russo posando como jornalista interessado em ativismo lhe pediu artigos para o site BlackMattersUS.

Moradores de bairros negros foram convidados a participar em aulas de autodefesa por um grupo laranja batizado de Punho Negro. O lutador de MMA Omowale Adewale caiu na conversa e deu aulas de autodefesa. 

Durante um ano, outro grupo, operando sob o título Muçulmanos Unidos da América, organizado por impostores russos cuja ligação com o Kremlin foi documentada numa reportagem do site Daily Beast, operou livremente no Facebook para disseminar rancor com reportagens como “Osama Bin Laden era um agente da CIA.” O grupo comprava anúncios regularmente no Facebook e tinha vasta audiência. Para aumentar a confusão, existe, há 30 anos, um grupo legítimo chamado Muçulmanos Unidos da América, que não está operacional no momento e promovia diálogo ecumênico, era conhecido de membros do Congresso.

Enquanto tentava radicalizar a esquerda, a campanha para desestabilizar a democracia constitucional americana cortejava eleitores no outro extremo, fomentando islamofobia e disseminando notícias falsas sobre refugiados.

Não sei quanto os traficantes brasileiros pagam por campanhas de políticos locais. Mas, em matéria de custo e benefício, é difícil superar os trolls do Kremlin. A operação de São Petersburgo gastou apenas US$ 2 milhões com 90 empregados em dois anos. Em 2015, o autor Peter Pomerantsev, um cidadão britânico nascido na antiga União Soviética, obteve uma mini-enciclopédia russa sobre guerra psicológica recém-atualizada e escreveu: “A operação de informação não é mais auxiliar a alguma luta física ou invasão militar. Agora ela se tornou a meta em si própria.”

A Internet e a rede social, desenvolvidas no Vale do Silício, foram potencializadas por uma autocracia eleitoral para fazer guerra à democracia eleitoral.

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