Inimigos do povo

O aumento do ódio ao jornalismo em todo mundo foi confirmado por uma organização

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2018 | 02h00

Uma pesquisa divulgada há dias revelou que 51% dos americanos que se declaram republicanos veem a imprensa como inimiga do povo. Na população geral, apenas 22% concordam com a afirmação. O aumento do ódio ao jornalismo em todo mundo foi confirmado pela organização Repórteres Sem Fronteiras ao comentar a edição do seu Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa de 2018. Quanto mais autocratas imitam a estratégia “nós contra eles” de vocês sabem quem, jornalistas são mais atacados e associados à elite corrupta.

O homem que diz odiar a imprensa mas consome seu conteúdo de maneira obsessiva, respondendo no Twitter a artigos de repórteres com quem nega ter conversado e declarações no ar em canais que jura não assistir, não deve saber a linhagem infame da expressão “inimigos do povo”. Ela emergiu na França, em 1789, como rótulo para qualquer resistência à revolução. Em poucos anos, se tornou sinônimo de ameaça de morte, com a criação de tribunais revolucionários com autoridade para aplicar a pena capital até a quem espalhasse notícias falsas. 

No final do século 19, o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, escreveu a clássica Um Inimigo do Povo, sobre o médico que é perseguido por denunciar a contaminação na casa de banhos de uma cidade. Mas a encarnação de “inimigo do povo” mais assustadora foi a usada por Joseph Stalin na primeira metade do século 20. A expressão era tão sinistra que foi banida por Nikita Kruchev nos anos 1950, pelo seu propósito de justificar “a aniquilação física de indivíduos” durante o terror stalinista.

Um simpósio, na terceira semana de abril, reuniu jornalistas e acadêmicos no Center for Media at Risk (Centro para a Mídia em Risco) na Escola de Comunicação da Universidade da Pensilvânia. Uma palestra do professor Jay Rosen, da Universidade de Nova York, chamou atenção para o fato de que o desafio encarado pelo jornalismo hoje é maior do que apenas combater a difusão de desinformação. A relação de jornalistas com o poder está sendo testada ao limite nos Estados Unidos e o presidente está saindo vencedor, conclui Rosen.

Desde a explosão do extremismo conservador em talk-shows e na mídia bancada pelo australiano Rupert Murdoch, Rosen denuncia a futilidade do que ele chama de “a visão de lugar nenhum”. É o esforço de se apresentar imparcial numa “performance de objetividade”. Assistimos a esse espetáculo toda noite, na CNN, quando bancadas de comentaristas misturam, por exemplo, uma autoridade em Direito Constitucional com algum comicamente ignorante defensor de qualquer iniciativa da Casa Branca derrotada em tribunais federais.

Já escrevi neste espaço sobre a responsabilidade do jornalismo de não lavar as mãos escondido atrás da falsa objetividade que requer selo de aprovação ideológica a fatos. Mas isso foi antes de 2016. A relação adversária do poder com a imprensa é necessária e saudável, mas, aponta Jay Rosen, a mídia americana não sabe como enfrentar um governo inaugurado fabricando o tamanho da multidão na posse presidencial e, que, de lá para cá, deixou claro, fatos são inconveniências a ser combatidas. Nixon destilava ódio a repórteres em conversas privadas. O atual presidente, assim como o ex-presidente brasileiro ocupando uma cela em Curitiba, faz isso em comícios.

O ex-assessor político da Casa Branca Steve Bannon disse numa entrevista recente: “Os democratas não têm importância. Os verdadeiros inimigos estão na mídia. E a maneira de lidar com ela é inundar a área com merda”. O editor do Washington Post reagiu: “Não estamos em guerra, estamos trabalhando”. Rosen concorda: a imprensa não pode cair na armadilha de ser o partido de oposição. Mas ao mesmo tempo, lembrou, “tem que combater um estilo político em que o poder consegue contar a própria história”.

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