Werther Santana/AE
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Ingo Schulze elege a Amazônia como tema de novo livro

Escritor que é a nova sensação da literatura alemã, da ex-Alemanha Oriental, lança 'Vidas Novas' no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paul,

05 de dezembro de 2009 | 04h00

Enquanto você lê esta página, o escritor Ingo Schulze, a nova sensação da literatura alemã vinda do outro lado do muro - isto é, da ex-Alemanha Oriental - desembarca na Amazônia, acompanhado por seu tradutor Marcelo Backes. Neste sábado, 5, tem início a longa jornada da dupla atrás do tema do próximo livro de Schulze, que lançou esta semana, em São Paulo, o romance epistolar Vidas Novas (Cosac Naify, 752 páginas, R$ 89), considerado pelos críticos - e o Nobel de literatura (1999) Günter Grass - o mais sério registro ficcional sobre a queda do muro de Berlim em 1989 (leia resenha nesta página). Em sua passagem pela cidade, Schulze adiantou ao Estado o tema e o título provisório de sua aventura amazônica, Terra Preta, em homenagem à terra encontrada em sítios arqueológicos da Amazônia, que derruba um mito, o de que o solo da região é inadequado para a agricultura.

 

A ideia de escrever sobre o assunto veio bem antes de Schulze ler a trilogia que seu conterrâneo Alfred Döblin, autor de Berlin Alexanderplatz, escreveu sobre o Brasil, Amazonas - Das Land ohne Tod (A Terra Sem Morte), Der blaue Tiger (O Tigre Azul) e Das neue Urwald (A Nova Selva). Schulze está tomado pelo espírito de Döblin e absolutamente fascinado por essa "terra preta" que vem enlouquecendo agricultores europeus. Eles querem saber como se formou um dos solos mais férteis do mundo, a "terra preta arqueológica" (TPA) que há mais de um século perturba os cientistas, atrás de uma resposta que apenas duas dezenas de pessoas já encontraram para a estranha fertilidade do solo de alguns sítios arqueológicos amazonenses com altos teores de cálcio, carbono, fósforo, magnésio, manganês e zinco.

 

A terra teria origem antrópica, isto é, resultaria de assentamentos indígenas. Índios pré-históricos teriam depositado em algumas regiões matéria orgânica cuja composição é desconhecida. Ela seria utilizada intencionalmente para fertilizar o solo, o que não combina muito com os hábitos errantes de aborígenes nômades. Schulze ainda não tem uma hipótese sobre essa prática cultural indígena, mas acha que ela pode vir, no futuro, a matar a fome do mundo e reciclar o lixo que o planeta não suporta mais absorver.

 

Como se vê, Ingo Schulze é um otimista, o que fica bastante claro após a leitura de seu livro infantil Senhor Augustin (Cosac Naify, ilustrações de Julia Penndorf, tradução de Irene Fehmann, 40 páginas, R$ 42). É um hino de louvor e respeito aos mais velhos, um voto de esperança no futuro. Nele, seu autor conta a vida de um senhor algo deslocado do mundo, que às vezes confunde o guarda-chuva com o cabo de vassoura. Contemplativo, é agredido verbal e fisicamente pelas crianças, uma delas empenhada em tirar das ruas o delicado homem, atirando-lhe uma pedra na cabeça - e arrependendo-se do gesto mais tarde. Obra dedicada a um tema ausente da literatura para pequenos, a solidão da velhice, Senhor Augustin é um livro singular na produção de Schulze, que não se considera autor infantil, embora seja um leitor tardio dos clássicos da literatura alemã do gênero (Karl May, Walter Moers e companhia).

 

Esse apego à literatura clássica se revela de forma mais explícita em Vidas Novas. Nesse livro, Schulze adota a forma epistolar em voga no século 18 para contar a fase de transição que levou à queda do muro de Berlim e promoveu a reunificação alemã. Para ele, essa é uma história que pode ser vista de vários ângulos. Schulze nasceu há 47 anos em Dresden, no lado oriental. Recentemente visitou a cidade natal, uma mistura de fantasia barroca com pesadelo stalinista, hoje transformada, segundo ele, numa Disneylândia arquitetônica para turistas. Não, ele não sente nostalgia do leste europeu ou de regimes totalitários. "Nós brincamos na Alemanha, trocando a palavra nostalgia por Ostalgie (aglutinação de Ost, o Leste, com Nostalgie, nostalgia), porque muitos, animados com a reunificação, passaram a consumir produtos da Alemanha Ocidental e esqueceram-se da cultura da Europa Oriental", conta Schulze. "Meu problema, porém, não é o desaparecimento do Leste, e sim do Ocidente, que está perdendo sua face humana", conclui.

 

O escritor chegou a participar de demonstrações públicas pela queda do muro, imaginando, naquela época, uma nova Primavera de Praga. Hoje, no inverno de sua desesperança, produz épicos como Vidas Novas, um tanto amargo mas extremamente útil para quem estiver disposto a saber como viviam os alemães orientais no período imediatamente posterior à reunificação. Nele, Schulze inventa uma espécie de Cidadão Kane da Alemanha Oriental, um poeta e homem de teatro que vira um pragmático empresário, dono de um jornal, e vai à bancarrota na virada de 1997 para 1998, desaparecendo a seguir. O leitor jura que Heinrich (ou Enrico) Türmer é real - ainda mais que seu criador conta no livro que conseguiu suas cartas graças à irmã, sua antiga namorada. Vidas Novas faz uso de todo aparato crítico para simular um romance epistolar, concluindo que a política se torna irrelevante quando o que havia de mais original num homem desaparece com ele, como a história da República Democrática Alemã, que se volatiliza nos dedos de seus protagonistas.

 

A propósito, Schulze conta que, em seu mais recente livro, Adam und Evelyn (Adão e Evelyn), em processo de tradução, recorreu a uma história bíblica para analisar essa lenda de reunificação, sendo que tanto a Alemanha Ocidental como a Oriental desaparecem com ela, somem das vistas dos alemães como o paraíso para os pecadores Adão e Eva. Adão, no caso, é Lutz Frenzel, um costureiro de 33 anos que vive com a namorada garçonete na casa dos pais, na antiga RDA, antes da queda do muro. Evelyn é um tanto consumista e tenta seu Adão com a ideia de pular para a Alemanha Ocidental, como se a vida no lado oriental não pudesse existir. "Não foi uma tentativa de metaforizar uma situação, construir uma alegoria sobre a reconfiguração das duas Alemanhas, mas, antes de tudo, um ajuste de contas com meu passado religioso", admite o escritor, hoje cético a respeito de anjos e demônios.

 

"Usei Evelyn como signo de mudança porque, a exemplo das histórias bíblicas, são sempre as mulheres que empurram os homens para experiências novas e lidam melhor com elas", observa o escritor, justificando por que elegeu Adão como primeiro narrador do livro, trocando-o depois por Evelyn, que tem a palavra final no romance. Schulze acaba de concluir o roteiro do filme baseado em seu livro, que será produzido pela Constantin Films, a mesma dos filmes de Fassbinder. Adão e Evelyn já foi adaptado para o teatro, assim como Vidas Novas. Schulze, sempre exigente, não gostou do resultado.

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