Ingleses voltam ao pop e criam nova arte

A associação é automática e reveladora. Os ingleses, que deram ao mundo a arte pop há quase meio século, passam por um momento de crise. Depois de Damien Hirst e suas vacas conservadas em vitrines, eles voltam ao passado em busca de uma saída para toda a salada de prefixos incorporados à arte contemporânea. Pós-modernismo, neo-neo qualquer coisa, vale tudo para tentar definir o que essa meninada faz ao revisitar as mesmas questões que intrigavam os artistas pop do Independent Group (IG) no começo dos anos 50, resumidas numa única: a obsolescência da arte na era do consumo desenfreado. E essa meninada está em São Paulo na exposição Novos Britânicos, que o Centro Brasileiro Britânico abre hoje. São 13 jovens artistas ainda fora do circuito comercial das galerias, todos eles selecionados entre os 350 participantes da última Fresh Fair Air, em 2003. Criada em 2001 para promover os novos, a feira de arte é tomada como referência das tendências da arte inglesa. Anwar Nassar, diretor da empresa promotora da exposição, Trampolim, selecionou jovens artistas desconhecidos do público brasileiro como David Fawcett, Max Taylor, Jane Goodwin, Debbie Goldsmith, Susan Kay e Hugh Mendes. Algumas das 58 obras - pinturas, em sua maioria - foram mostradas na Fresh Fair Air. Outras são inéditas. Todas estarão à venda. Na mostra Novos Britânicos, em raros momentos é possível associar a atitude dos novos ingleses à contestação da velha geração ao estatuto da arte como expressão de uma personalidade. A luta é justamente pela retomada dessa personalidade numa sociedade padronizada e uniformizadora. Um pintor como Max Taylor, morador da periferia londrina, fala dessa dificuldade ao retratar edifícios de arquitetura duvidosa separados da periferia por cães violentos de raça híbrida. Hugh Mendes revisita Andy Warhol, ao subverter manchetes de jornais e criticar a política do Vaticano sobre o uso de preservativos, mas o faz de forma assumidamente pessoal e paródica, mesmo procedimento do engraçado ex-tabelião David Fawcett, que reduz ao patético o mundo dos burocratas e executivos. Algumas dessas pinturas usam tinta industrial acrílica, transferindo para a tela a impressão de gag visual que usa material descartável na era da reciclagem. Os "novos britânicos" não se apropriam do pop por puro cinismo, mas para tentar entender como o pós-modernismo entrou em colisão com a história da arte. A rebelião dos artistas do Sensation foi necessária para que os ingleses redescobrissem a pintura. Essa volta ao passado pode ser o prelúdio de um novo período para a arte. Novos Britânicos. Centro Brasileiro Britânico. Rua Ferreira de Araújo, 741, Pinheiros. tel: 3039-0500. 10/19h (sábado, domingo e feriado, até 16h). Grátis. Até 27/8.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.