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Vencedor do Man Booker Prize de 2010, o polêmico Howard Jacobson chega ao País com A Questão Finkler

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h11

A verve satírica do escritor inglês Howard Jacobson já foi comparada ao humor do norte-americano Philip Roth, mas ele prefere que o aproximem da demolidora literatura antiescolástica do renascentista francês François Rabelais (1494-1553), criador dos gigantes Gargântua e Pantagruel, representações metafóricas do poder do homem sobre o mundo supersticioso da Idade Média. "Rabelais, e não Roth, é a minha referência máxima", assume Jacobson, 73, que há três anos provocou polêmica ao ganhar o Man Booker Prize por A Questão Finkler, lançado esta semana pela editora Bertrand Brasil. Se o livro tivesse sido escrito por um não judeu, Jacobson certamente estaria em apuros como o jogador de futebol grego Giorgos Katidis, que, no último sábado, comemorou com a saudação nazista o gol de vitória contra o Vetria, na 26.ª rodada do Campeonato Grego.

Acontece que Jacobson está longe de ser antissemita, embora os personagens judeus de A Questão Finkler sejam caricaturas deliberadas, como nos livros de Rabelais. De Londres, por telefone, ele concedeu uma entrevista ao Caderno 2. Nela, Jacobson deixou clara a distância entre ele e seu personagem Finkler, filósofo judeu assumidamente antissionista, que abdicou do prenome Samuel, só fala bem da Palestina e integra um grupo radical chamado Judeus Mortificados, que protesta contra a política de Israel sobre os territórios ocupados. "Não costumo aparecer em meus livros, como Hitchcock fazia em seus filmes", diz Jacobson, garantindo que o único personagem do livro baseado numa pessoa real é o ex-professor nonagenário Libor Sevcick, judeu checo que ocupou, entre outras funções, a de colunista de fofocas em Hollywood.

Libor é amigo de Finkler, embora não divida com ele as mesmas opiniões sobre Israel ou o sionismo. Julian Treslove, um depressivo ex-produtor de rádio da BBC, é o único não judeu do trio. Ainda assim, sente inveja dos amigos, particularmente de Finkler, seu colega de escola, rival e filósofo badalado, além de celebridade televisiva, o que o torna ainda mais insuportável. Ao contrário dos dois, Treslove não casou, perdeu o emprego na BBC (porque seu programa noturno era um tanto mórbido) e cobiça a sobrinha-neta de Libor. A "questão Finkler" a que se refere o título surge exatamente quando Treslove é assaltado na rua e imagina ser esse um violento ataque antissemita: o que significa, afinal, ser um judeu no século 21?

"Como não se trata de um ensaio, optei por ser exagerado, soltar a língua, na tradição de Rabelais, mesmo correndo o risco de parecer um tanto selvagem", diz Jacobson, autor do que classifica "o romance mais judeu que alguém jamais escreveu" (Kalooki Nights, sobre um cartunista obcecado pelo Holocausto, não lançado aqui). O escritor também é autor de um livro de não ficção sobre a questão judaica, Roots Schmoots: Journeys Among Jews (1993), and Seriously Funny: From the Ridiculous to the Sublime (1997), este último uma investigação sobre as origens da comédia. "Acho que estamos perdendo a capacidade de escrever bem por causa de toda essa correção política, que impede um autor de se manifestar livremente como na época de Henry Miller." Jacobson não é fã do autor de Trópico de Câncer, mas, comparado ao besteirol pornô que invade atualmente as livrarias - e ele cita particularmente Cinquenta Tons de Cinza -, Miller, arremata, é um gênio.

Philip Roth, segundo Jacobson, era melhor, mas parou de escrever - "ainda que, acredito, não por muito tempo". Roth jamais entenderia os judeus ingleses, segundo Jacobson. Em Manchester, quando garoto, o autor de A Questão Finkler frequentava a sinagoga e comia carne de porco escondido. Mais recentemente, teve uma discussão com um rabino, dizendo a ele que Deus não se importa se ele comer de novo um sanduíche de bacon - Jacobson não se julga ateu, mas considera inaceitável a ideia de um Deus monitorando seus atos. "Quando Roth escreve, ele fala sobre a América, mas eu não posso fazer o mesmo, pois, quando escrevo sobre a Inglaterra, sinto-me um outsider que, embora livre, faz parte de uma pequena comunidade com um gigantesco complexo." E qual seria ele? Um sentimento de inferioridade, de alguém pertencente a um grupo étnico estigmatizado - o primeiro pogrom europeu, lembra, não foi na Rússia ou na Polônia, mas na Inglaterra.

"Estamos nos policiando o tempo todo e eu sinto que minha missão é a de escrever algo cômico para resgatar nossa vitalidade selvagem." Seu mais recente livro, Zoo Time, fala de um escritor fracassado, cujo editor se matou e o agente desapareceu. Fala sobretudo da inabilidade de ler nos tempos atuais. Jacobson prepara agora um livro de ficção, uma distopia. Diferente de tudo o que escreveu, garante o autor.

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