Inglês dirige duas óperas em SP

Mexendo nas maquetes do cenário como uma criança frente a um novo brinquedo, o diretor inglês Aidan Lang recebeu a reportagem em um dos porões do Alfa, onde ele dirige, a partir de outubro, uma montagem das óperas Cavalleria Rusticana, de Mascagni, e I Pagliacci, de Leoncavallo.Lang já esteve por aqui no ano passado, quando dirigiu, também no Alfa, uma montagem de Don Giovanni, ao lado de Jamil Maluf e da Orquestra Experimental de Repertório, com quem afirma ter gostado muito de trabalhar. "O que mais chama a atenção neles é a seriedade, o desejo de fazer um trabalho de qualidade, honesto", afirma.Tendo à sua frente duas óperas que são verdadeiras expressões do gênero verista, que introduziu a recriação detalhista de ambientes e sensações, Lang diz que o que mais lhe atrai nas duas óperas é a intensidade emocional das personagens. "Para mim, a ópera trata da emoção, o que exige um estilo teatral muitas vezes abstrato e faz com que eu opte por uma visão mais expressiva ao invés de decorativa", acredita.Cavalleria Rusticana, composta em 1890, se passa durante as festividades da Páscoa em uma aldeia siciliana e conta a história do jovem soldado Turiddu (Dennis O´Neill), apaixonado por Lola (Luciana Bueno), que , por sua vez, é mulher do carroceiro Alfio (Sebastião Teixeira). Ao mesmo tempo, Santuzza (Celine Imbert), apaixonada por Turiddu, é rejeitada por ele. Ela o amaldiçoa e conta a Alfio sobre o romance de seu amado com Lola. Procurado por Alfio, Turiddu reconhece a traição e aceita o desafio de Alfio, em que acaba morto.Também I Pagliacci remonta ao início da década de 1890. Com libreto do próprio compositor, a ópera, uma das mais populares do repertório italiano, se passa durante a festa de Assunção em Montalto, na Calábria. Canio (Dennis O´Neill), Nedda (Claudia Riccitelli), Tonio (Licio Bruno) e Beppe (Fernando Portari), membros de uma companhia de teatro itinerante param na região para uma apresentação. Canio, marido de Nedda, desconfia de sua mulher, acreditando que ela e Tonio estão tendo um caso. No entanto, é o aldeão Sílvio que, secretamente, tem se encontrado com Nedda. Em um desses encontros, os dois são vistos por Tonio, que conta a Cannio, fazendo com que ele persiga o amante da mulher. Mas acaba convencido por Beppe e Tonio a esperar até a hora do espetáculo para se vingar. É quando, enlouquecido, mata Nedda e Silvio.Semelhanças - O início do trabalho pautou-se, segundo o diretor, na busca por pontos em comum nas duas óperas. "Cada ópera tem regras próprias, um universo único sobre a mesma base. Ironicamente, são diametralmente opostas. A sensação e o sentimento são diferentes".Na Cavalleria, o que mais interessa a Lang é retratar a opressão. "As personagens estão todas presas dentro de suas próprias mentalidades", indica. A saída cenográfica foi criar um cenário em que as personagens apareçam pequenas perante duas grandes paredes, tendo ao fundo uma única porta indicando a entrada da Igreja. "A única saída dessas pessoas é a Igreja, que tem um papel fundamental na trama."Ele faz questão de ressaltar, no entanto, que a crítica da ópera não é contra a Igreja em si, mas ao uso que as pessoas fazem dela e de seus valores. "A ópera se passa na época da Páscoa, no entanto, toda ela está baseada em uma crueldade, o que mostra bem o que é a sociedade em que se insere a trama: a idéia de nova vida aparece misturada com a discórdia."Nesse sentido, Lang pretende, num primeiro momento, mostrar ao público a convenção social retratada por Mascagni, as regras segundo as quais vivem as pessoas daquela região. "Só então será possível quebrar essa realidade e mostrar como as pessoas são volúveis." Lang acredita que Cavalleria é, apesar de sua simplicidade, uma das mais complexas óperas a ser montada. "É incrível o número de cenas que acontecem fora do palco."Fuga - Em I Pagliacci, o que interessa é retratar a busca das pessoas por uma realidade diferente, a constante fuga das personagens. Para tanto, ele levou a ação para um cinema italiano a céu aberto, que pode se transformar também em um teatro, no período pós-Segunda Guerra Mundial. Sílvio foi transformado em um projecionista, preso em sua vila natal, lutando por sair dali em busca de um novo mundo de possibilidades. Nedda foge do casamento, Canio encontra-se perdido entre a traição de sua esposa e sua própria vida. "O ambiente remete a farsas cômicas da década de 50, com um colorido muito grande reproduzido tanto nos cenários como nos figurinos", explica.Na cena em que a companhia interpreta o espetáculo para o público presente no palco, a ação também é atualizada: para se ter uma idéia, Arlequim aparece como um encanador!Esta cena, aliás, é, segundo Lang, um dos pontos altos da trama. "O teatro, na ópera, é uma metáfora da ilusão e a sua presença possibilita uma discussão sobre a realidade e a ficção, tendo sempre em vista a idéia da fuga." Está aí, para ele, o que há de mais fantástico na obra de Leoncavallo. "Dramaticamente ela é perfeita, possui uma ironia, uma tensão que é fascinante."A maior dificuldade em montagens de óperas do repertório tradicional é, para o diretor, mostrar ao público que há outras possibilidades interessantes. "Temos que persuadir o público de que a resposta tradicional nem sempre é a mais interessante." A relação com o público deve ser, segundo o diretor inglês, acima de tudo, honesta. "Não estou preocupado se o público vai ou não concordar, mas sim em fazer algo no que acredito pois, só assim, estarei fazendo um espetáculo verdadeiro", afirma Lang.

Agencia Estado,

12 de setembro de 2000 | 21h34

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