Inglês constrói texto para destacar atrizes

A peça 'Sopros de Vida' é protagonizada pelas experientes Rosamaria Murtinho e Natália Timberg

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

Natália e Rosamaria vivem rivais em cena. Foto: Cristina Granato/Divulgação

 

O talento do inglês David Hare não está em criar grandes fábulas. Também não se pode ver no dramaturgo nenhum pendor especial para desconstruir linguagens ou redefinir paradigmas do teatro. Em seus textos costumamos encontrar aquilo a que se poderia chamar de "grandes personagens", papéis que acendem o foco sobre o talento de seus intérpretes. E é justamente esse o aspecto que chama atenção em Sopros de Vida.

Escrita em 2002, a peça merece sua primeira adaptação no Brasil protagonizada por duas experientes atrizes do teatro nacional: Rosamaria Murtinho e Nathalia Timberg.

Depois de passar pelo Rio e por algumas capitais do Nordeste, o espetáculo faz sua estreia paulistana nesta quinta, 19, no Teatro Vivo. A encenação ficou a cargo de Naum Alves de Souza e concretiza o desejo do diretor de trabalhar com Nathalia, que comemora 80 anos, 60 deles de carreira. "Os diálogos são muito agudos, mordazes, quase duros. É um presente para grandes interpretações", diz Alves de Souza sobre a peça, que parece ter sido criada pensando em abrir espaço para "tours de force" do elenco. Assim foi em 2002, quando Maggie Smith e Judi Dench foram escaladas para viver as protagonistas da versão britânica da trama. Mas não é apenas no teatro que as performances femininas de sua obra são sublinhadas. Para o cinema, Hare escreveu os roteiros adaptados de As Horas e O Leitor.

Embate feminino. O encontro de duas mulheres que amaram o mesmo homem, e foram abandonadas por ele, abre o texto. A partir daí, o autor amarra uma série saltos no tempo e faz presente e passado convergirem para relatar o acerto de contas entre a esposa, Frances (Rosamaria Murtinho), e aquela que foi amante de seu marido durante anos, Madeleine (Nathalia Timberg). É só depois do divórcio, que Frances decide conhecer sua antiga rival. Viaja até a ilha aonde ela se refugiou e usa uma biografia, que supostamente contaria a história dos três, como pretexto para a conversa.

"Nessa situação é possível imaginar que elas se odiariam, mas não é isso que ocorre e é justamente aí que está a originalidade do texto. As duas foram trocadas por uma mulher mais jovem. Ambas tentam entender por que foram tão apaixonadas por ele e por que foram deixadas", pontua Alves de Souza, que assina a tradução do texto ao lado de Nathalia. "Outro dado interessante é que esse homem, que sempre teve uma amante e as trocou por uma mulher mais jovem, não é o canalha que parece ser, mas alguém encantador."

De tom claramente realista, o texto se propõe a esquadrinhar o que seria a "alma feminina". Durante esse encontro, as personagens oscilam entre momentos de enfrentamento e cumplicidade, desdobrem pontos de contato e saem, finalmente, transformadas pela experiência.

Não é apenas sobre questões de âmbito privado, porém, que Hare se debruça. Ainda que lateralmente, também aparecem conflitos de geração e questões de fundo político, que ganham corpo na personagem de Nathalia Timberg, ex-ativista pelos direitos humanos e uma espécie de ícone dos anos 1960 e 70.

Tudo o que sabemos sobre:
Sopros de Vida

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.