Ingenuidade falsa expõe a repressão

PARA LEMBRAR

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Empenhada em provar que era atriz e não objeto sexual, Marilyn Monroe achou ofensiva a personagem de dama da noite que o escritor Truman Capote esculpira para ela. Marilyn era a favorita do escritor para fazer Holly Golightly, mas felizmente o diretor Blake Edwards se deu conta de que, se era para mascarar a profissão de Holly, Marilyn, só por entrar em cena, já a tornaria explícita. Audrey Hepburn era a escolha perfeita.

Ela já era um ícone da elegância, mas foram o longuinho preto, a piteira e os grandes óculos escuros, mais a gargantilha de pérolas, que esculpiram o mito da mulher mais bem vestida do mundo. Bonequinha de Luxo marcou a despedida do Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência em Hollywood. As mudanças de comportamento que já começavam a ocorrer ? e se acentuaram ao longo dos anos 1960 ? levaram ao arquivamento do código. Holly talvez tenha sido a última prostituta sem licença para rodar a bolsinha.

George Peppard também fazia um gigolô, mas todo mundo fingia que não. O que poderia ter arruinado Bonequinha de Luxo contribuiu para a aura do filme. A ingenuidade é falsa. Não existe retrato mais acurado das aspirações da América, na época. E a trilha? Audrey, cantando Moon River, é uma das emoções imperdíveis do cinema. /

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