Ingenuidade e deslumbre marcam novos negócios da moda brasileira

Esqueça as pantalonas, as maxibolsasou os babados. Para entender de moda brasileira agora é precisosaber o que é um fundo de investimento, uma gestora de marcasou uma holding operacional. A nova tendência é difícil de usar. Chegou com estardalhaçona temporada passada e se estende aos trancos e barrancos poresta nova edição do São Paulo Fashion Week. A "novidade" já deu dor e cabeça para estilistas de renomecomo Alexandre Herchcovitch e Fause Haten, além da grife Zoomp,cooptados pela gestora de grifes Identidade Moda (I'M). Os doisprimeiros se desligaram da nova empresa, e a Zoomp acabou defora do SPFW -- tudo por causa de problemas financeiros. Enquanto Herchcovitch conseguiu desfazer o negócio, FauseHaten perdeu a grife que leva seu nome inteiro, relembrando ocaso Marcelo Sommer, que vendeu sua grife Sommer ao grupofamiliar AMC Têxtil em 2004 e acabou afastado por divergênciasde criação. "Eles achavam que iam ganhar milhões, mas na verdade iamgastar milhões. Acho que foi ingenuidade", disse a editora demoda Regina Guerreiro sobre os empresários e estilistas do casoI'M. Apesar do drama, o mundo fashion não se deixa abater --Fause Haten lançou uma nova grife, a FH, e Herchcovitchdesfilará suas coleções feminina e masculina. No lugar da I'M,que roubou os holofotes em janeiro e depois desapareceu daspassarelas, agora é a vez da Inbrands, que já estava nomercado, mas surge com mais poder de bala. A Inbrands é uma holding operacional que gere a partelogística e financeira de seu portfolio de grifes -- Ellus, 2ndFloor e Isabela Capeto. Um dos sócios da empresa, NelsonAlvarenga, confimou à Reuters que Herchcovitch fará parte dogrupo. Enquanto a I'M chegou a vislumbrar um faturamento de 300milhões de reais para este ano, triplicando o valor em cincoanos, a Inbrands afirma que fará este ano 500 milhões de reaise, em dois anos, terá faturamento de 1 bilhão de reais. "Cada marca vai manter sua identidade", promete Alvarenga."A parte de criação, distribuição e marketing continua da mesmamaneira. O que a Inbrands vai fazer é ajudar em tudo aquilo queo consumidor não vê, que é a parte de organização, delogística, financeira", disse. "O objetivo é ser a número um, ou dois no máximo, noBrasil", disse. Por conta da experiência de Alvarenga, que fundou a Ellus35 anos atrás, há um otimismo dos especialistas com a Inbrands. Além dela, também existem outros grupos formando pequenosconglomerados de moda, embora com menos barulho -- como a AMCTêxil (Colcci, Forum, Triton e Coca-Cola Clothing), a BR Labels(VR Menswear e Mandi) e a Marisol (Rosa Chá e Lilica Repilica). DESCONFIADOS Para Regina Guerreiro, a "tendência" precisa, para darcerto, de grupos muito fortes financeiramente para uminvestimento eficaz e de um produto mais caprichado. "Não é apostando na moda que a gente está fazendo ainda quea gente vai conseguir exportar", disse Regina, explicando quesó beachwear e jeanswear brasileiros exportam de verdade. "Acho que a moda brasileira deveria apostar mais embásicos, em uma ótima qualidade e acabamento, e deixar aspessoas personalizarem esses básicos", disse. "Porque a modavai pra isso. Todos os caminhos já foram percorridos. Mais umbabado, menos um babado, não vai mudar o futuro de ninguém." Quem não entrou ainda na nova fase, olha desconfiado, masaberto a negociações, como o estilista Oskar Metsavaht, dafesteja e cobiçada grife Osklen, que abriu o SPFW naterça-feira. Ele afirmou que já foi procurado por cerca de seis gruposde investimento e que deve fazer uma parceria com uma empresaestratégica ligada à indústria de moda. "Você só tem a ganhar com isso. Só não vou abdicar da minhaliberdade de estilo de vida e liberdade criativa", disse oestilista, embora tenha se mostrado bastante cauteloso. "O que eu disse na época (em janeiro) foi que estava tudobastante prematuro. Está tendo um deslumbre tanto dos fundos deinvestimentos como dos designers, e eu até me incluo nisso.Acho que há um deslumbre sem muita consistência nos negóciosainda", disse.

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