Vik Photo Atelier
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Influenciadores acima dos 50 anos mostram que não há idade para se reinventar

Marcas passaram a prestar mais atenção nesse público, especialmente durante a pandemia

Danilo Casaletti, Especial para o Estado

09 de julho de 2020 | 05h00

“Sabe por que avós e netos se dão tão bem? É porque têm um inimigo em comum: a mãe”. É com essa frase espirituosa que Helena Wiechmann, de 91 anos, dá o tom do canal de YouTube Avós da Razão, que tem mais de 37 mil inscritos e um perfil no Instagram com 57 mil seguidores. Ele faz parte de um mapa que a consultoria de marketing de influência Silver Makers acaba de divulgar com cerca de 300 influenciadores digitais acima dos 50 anos que cada vez mais vêm ganhando seguidores nas redes sociais e chamando a atenção de marcas para parcerias, palestras e, agora, lives.

O Avós da Razão se dedica a responder a perguntas dos internautas, sempre com bom humor e sem julgamentos – e sem medo de serem julgadas –, com temas que variam sobre como envelhecer a sexo na terceira idade. À frente do canal estão, além de Helena, Gilda Bandeira de Mello, de 78 anos, e Sonia Bonetti, de 83. Amigas há mais de 50 anos, elas resolveram, por incentivo da ex-nora de Gilda, levar para internet, em 2018, os papos que tinham nos encontros – quase sempre realizados em botecos. “Ela nos ouvia e achou que a gente tinha um potencial, que nossa conversa tinha conteúdo”, diz Sonia que, antes de se aposentar, era comerciante. 

Helena foi tradutora e trabalhou com produção cinematográfica na Vera Cruz. Gilda foi figurinista do SBT por mais de duas décadas. Todas dizem que já sabiam lidar com a tecnologia e que apenas se atualizam sobre as novas ferramentas e funcionalidades dos aplicativos.

“É uma reinvenção. Não deixa de ser um trabalho. A gente se dedica de verdade”, diz Gilda. A dedicação já rendeu propagandas para marcas como Bradesco, Arezzo e Boticário. “São trabalhos interessantes, que nos remuneram justamente. As marcas estão se conscientizando sobre o que os velhos podem fazer por elas. Falta muito, mas já é um começo”, afirma Sonia. As três também têm como objetivo dar voz ao público mais maduro. “Chamamos os velhos para a briga! Temos que mostrar que somos muitos. Estamos colaborando com uma classe que estava esquecida”, completa Sonia. Gilda só lamenta que parte desse público não tenha intimidade com a tecnologia. “Tem gente que diz que não gosta. Mas não tem jeito. É o caminho daqui para frente.”

 

Do Big Brother para as redes sociais

Outra influencer que aparece na lista é a gaúcha Ieda Wobeto (@iedawobetoreal), de 73 anos, que ficou em terceiro lugar no Big Brother Brasil 2017 – a participante mais velha a entrar no programa até hoje. Com 245 mil seguidores, ela posta fotos ao lado de filhos, netos e do marido, Marcelo Gomes, de 37 anos, além de fazer campanhas publicitárias, sobretudo de marcas de roupa. “Quero mostrar que a vida da mulher não acaba aos 50 anos ou quando ela se separa ou fica viúva. Se reinvente, tente ser feliz. Se você não fizer isso por você, ninguém o fará.” Filha de agricultores, Ieda diz que aprendeu, ainda menina, a se vestir e a se pentear olhando as fotos de revistas. Eleita aos 18 anos a primeira Miss Canoas, cidade da grande Porto Alegre, hoje é ela que, de certa forma, serve de modelo para seus seguidores ao postar seus looks sempre bem produzidos. 

Ieda não vive apenas de seu trabalho como influenciadora. O retorno, garante, é servir de exemplo para as mulheres da sua idade. “Recebo mensagens pedindo conselhos, gente dizendo que gostaria de ser igual a mim. Isso me motiva, eu me renovo”, diz Ieda que, com o tempo, aprendeu a lidar com os haters – aqueles seguidores mais agressivos – que chegam juntos com a fama, sobretudo para quem participou de um programa como o BBB. “Me chamavam de velha, diziam que eu estava com a data de validade vencida. Isso me ofendia. Hoje não ligo.”

Representatividade

Mulheres como Helena, Sonia, Gilda e Ieda fazem parte da representação que domina o ranking elaborado pela Silver Makers, consultoria especializada no público sênior. De acordo com o levantamento, 84% dos perfis dos influenciadores da terceira idade são comandados por mulheres – a maioria toca em temas como valorização, estilo de vida, moda, desejos e saúde. Já os homens, segundo o estudo, preferem temas mais objetivos, como finanças, por exemplo. “As mulheres, quando chegam nessa idade, se libertam, ficam mais soltas. Já os homens, com a aposentadoria, se retraem”, analisa Cléa Klouri, fundadora da Silver Makers, que faz a intermediação entre marcas e influenciadores da chamada economia prateada

Segundo ela, o interesse das marcas por interlocutores mais maduros é recente e acelerou durante a pandemia, já que os idosos, por estarem no grupo de risco, passaram a ficar mais em casa e, consequentemente, era preciso atingi-los. “Era um público invisível, sobretudo para as marcas de moda. Outros segmentos que procuram pelo público de mais de 50 anos são cosméticos, farmacêuticos, produtos geriátricos e, agora, os supermercados. As marcas também estão atentas à diversidade”, diz Cléa.

Apesar da crescente procura, nem todos os influenciadores que aparecem no ranking conseguem de fato lucrar com seus perfis. Caso da funcionária pública Sueli Rodrigues, de 71 anos. Ela guarda a data exata que começou a se aventurar pelo meio digital: 24 de janeiro de 2019. Primeiro, com um blog; mais tarde, pelo perfil @blogdasu70 no Instagram, que tem mais de 24 mil seguidores.

À época, Sueli se recuperava de um câncer de estômago que a obrigou a retirar 80% do órgão e fez com que ela perdesse dez quilos. Mais magra, nenhuma das roupas que tinha parecia lhe ficar bem no corpo. Pelo menos aos seus olhos. Incentivada por uma amiga quase 50 anos mais jovem, postou um dos looks na internet. Foi aprovada. “Não que eu estivesse ‘deprê’, pois nunca fiquei, mas estava com a autoestima abalada. O blog me deu um ‘up’”, diz Sueli, que, apesar do corpo franzino que sempre teve, trabalha como agente de segurança na Câmara dos Vereadores de Itu, cidade do interior de São Paulo, desde que, aos 59 anos, foi aprovada em um concurso público.

A doença foi superada – e os looks continuam. Ela posa e posta, sempre com uma frase de incentivo. “Olha, se há dois anos alguém visse em uma bola de cristal que eu seria um influencer no futuro, eu soltaria uma gargalhada. Jamais imaginei”, diz ela que, por conta de seu perfil, já apareceu na novela Beleza Pura, da TV Globo, e foi convidada para o programa Encontro, de Fátima Bernardes. 

Finanças e estilo de vida

Entre os homens, um dos perfis de destaque é o canal do YouTube Mais 50, comandando pelo ex-executivo de marketing Dimas Moura, de 62 anos, com 157 mil inscritos, inaugurado em agosto de 2017. O perfil foi pensado por Moura depois que ele resolveu pendurar o paletó após 40 anos de trabalho, muito deles em multinacionais. Segundo ele, sua meta sempre foi parar aos 60 anos. Conseguiu. “Todo mundo me achou um maluco. Como pedi demissão, diziam que eu era louco por abrir mão da indenização”, conta.

O projeto ganhou mais força depois que ele participou de uma palestra dedicada ao público maduro. Os assuntos, segundo ele, só focavam no lado ruim do envelhecimento. “Falaram até em campa de cemitério. Pensei: eu quero viver, não quero pensar em morrer”, conta Moura, que arquitetou quatro pilares para o Mais 50: viajou mais de 20 países e inúmeras cidades do Brasil para mostrar como era viver com mais de 60 neles; começou a dar dicas de finanças para viver bem após a aposentadoria; abordou temas relativos a qualidade de vida e, por fim, não deixou de lado assuntos do cotidiano, como o sexo, por exemplo.

“Eu era formatado. Agora, sou livre, faço o que eu quero. Às vezes, a pessoa de idade acha que é feio usar uma bandana, por exemplo. Eu, se tiver vontade, uso”, diz Moura, que costuma fechar parcerias, sobretudo com assessorias financeiras. “O ganho de dinheiro com influenciador é relativo. Na verdade, é um mercado, uma maratona. Poucos chegam ao final”, diz. 

Apesar dessa corrida, os influenciadores maduros têm em comum, além da vontade de transmitir algo leve para o público, a experiência de que a vida dá voltas e os surpreende, independentemente da idade. Por isso, o importante é viver o presente. “O futuro é mais tarde, depois do almoço, na hora de dormir. Nem quando eu era jovem eu pensava nele”, ensina a Helena Wiechmann, aos 91 anos, uma das Avós da Razão.

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