Influência vai da música ao cinema

É possível encontrar ecos do seu design e suas fantasias metafísicas nas naves dos filmes de ficção dos últimos 30 anos, nas roupas do Cirque du Soleil ou nos costumes do grupo dance Black Eyed Peas.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Assim como 2001 - Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick, e Alien, o 8.º Passageiro (Moebius era o diretor de arte) criaram um imaginário de ficção científica que persiste, as visões do cartunista francês Jean Giraud, o Moebius, materializaram universos que se tornaram palpáveis, pedras fundamentais da arte sequencial. É como se ele fosse o equivalente, para os franceses, ao que os autores do realismo fantástico latino-americano representaram para nós aqui.

M?bius foi responsável pelos storyboards de dois clássicos do cinema: O Caçador de Androides, de Ridley Scott, e Duna, de David Lynch. Tem diversas responsabilidades espalhadas, como no blockbuster O Quinto Elemento, de Luc Besson. Também colaborou com Stan Lee numa história do Surfista Prateado, um dos personagens mais cults das HQs. No Brasil, há muitos artistas influenciados por Moebius, como Watson Portela.

Angoulême, maior feira de quadrinhos da França, organizou uma homenagem gigantesca a M?bius em janeiro de 2000. Chamava-se Trait de Génie, e mostrava os dois lados do desenhista francês: o de autor convencional, ligado a um mundo realista (o que ocorria quando ele criou o Tenente Blueberry, um western à moda antiga) e o criador de universos excêntricos, como os do Incal e da Garagem Hermética.

O Tenente Blueberry, no início, tinha o mesmo rosto de Jean-Paul Belmondo. Eis como Moebius explicou o fato: "Belmondo encarna qualquer coisa na qual eu queira me reconhecer: uma agilidade felina, descontraída, americana, um charme sinuoso a serviço de filmes de vanguarda. A antítese de Alain Delon. É por isso que ele é meu avatar."

Na 31.ª Mostra de Cinema de São Paulo foi exibido o filme Moebius Redux - A Life in Pictures (2007), de Hasko Baumann, que trazia música de Karl Bartos, do Kraftwerk - nada mais oportuno que um dos inventores da música eletrônica lado a lado com o inventor das viagens espaciais.

Moebius aproxima os quadrinhos das artes plásticas, mas não está nem em um nem em outro mundo. Sua cenografia, extremamente bem concebida, se vale de um traço básico que lembra às vezes a arquitetura de Niemeyer: ovos gigantes semirrachados, criaturas de conformação arredondada, um certo ideário new age em luzes e céus.

O efeito é lírico, ao mesmo tempo que prenhe de estranheza. "A arte deve ser paranoica", disse o criador de 72 anos, nascido em Nogent-sur-Marne. Sua emergência, explicou, coincide com um momento histórico em que a própria sociedade francesa estava em feérica transformação, com expansão de universidades e vivendo uma euforia plástica trazida pela Nouvelle Vague. Ele achou seu caminho nesse cenário.

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