Influência permanece fortalecida ainda hoje

ENTREVISTA - Cacá Diegues e Fernando Meirelles, cineastas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Você acha que Cidadão Kane ainda é o maior filme de todos os tempos?

Cacá Diegues (foto esq.): Não gosto dessas classificações como "maior filme de todos os tempos". O que existe são filmes bons e ruins, em diferentes gradações. Dentro disso, prefiro dizer que Kane é um dos fundadores do cinema moderno, com A Regra do Jogo, Roma, Cidade Aberta e alguns outros.

Fernando Meirelles: Dizer "o maior de todos os tempos", mesmo para qualificar um camarada imensamente alto, é sempre uma oportunidade de cometer um erro. A contribuição de Welles ao cinema pode ser comparada à daqueles russos que filmaram 20 anos antes dele e a de cada genial diretor que abriu uma nova janela para o cinema.

Qual a contribuição e influência do filme de Welles para o cinema moderno?

Cacá Diegues: Kane talvez seja o primeiro filme pós-folhetim do cinema americano, aquele que rompeu com as regras do melodrama romântico que sucedeu o cinema mudo. Ele ressuscita o espírito do "específico fílmico" que havia morrido com o advento do sonoro e com isso envolve o cinema num compromisso com a liberdade de expressão e com a invenção de uma linguagem nova. É também uma transgressão política que anuncia o que será o cinema do pós-guerra, inquisidor, contestador, crítico e moral. Com Kane, o cinema deixava de ser o embalo de sábado à noite da família americana, tornando-se instrumento do pensamento sobre o estado do mundo.

Fernando Meirelles: O que surpreende ao assistir o filme hoje é seu frescor. Cidadão Kane não envelheceu. O roteiro traz uma ironia e uma complexidade do personagem central absolutamente contemporânea. Ha uma liberdade narrativa, em que ele permite juntar num mesmo pacote vários tons e linguagens para contar uma mesma história. Pula do drama psicológico para o documentário com uma liberdade ainda rara hoje em dia. Na fotografia Welles inventou técnicas, lentes e enquadramentos. A montagem é quebrada, musical, muda de ritmo o tempo todo. Até o tema não poderia ser mais atual, Kane poderia ser um empresário do petróleo, a fonte de energia do futuro na época, mas não, é um empresário da informação.

Qual foi o impacto de Kane sobre o cinema brasileiro?

Cacá Diegues: Imenso. Kane era um dos filmes prediletos da geração do Cinema Novo, por todas as razões. Terra em Transe, a obra-prima de Glauber, é filho direto dele na sua ânsia de desvendar a dialética do poder e na própria estrutura narrativa desconstruída. O mesmo posso dizer de meu filme Os Herdeiros ou do Bravo Guerreiro de Gustavo Dahl. E finalmente CK encontrou uma espécie de cultor permanente em Rogério Sganzerla e sua saga wellesiana.

Fernando Meirelles: Posso falar sobre a minha experiência. Cidade de Deus, com sua narração às vezes jornalística, informativa, bebeu daquela fonte. No último episódio da série Cidade dos Homens para TV, feita metade em animação, há uma sequência que é uma homenagem ao filme. Meu hipersingelo tributo.

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