Influência é imensa, mas ''filhotes'' o temem

Cuba atravessava grave crise econômica em 1970. Bola de Nieve, chegando a Pinar del Rio, vindo do México, foi hospedar-se no hotel da província. Faltava água. Bola perguntou se tinha banho e a concièrge lhe deu um balde, recomendando que fosse à rua procurar água. Bola olhou para o escritor Félix Contreras, com "olhar de malandro e gozador", e disse: "Poeta Contreras, vou embora para Havana. Se quiser ficar, fique. Mas eu vou cair fora, porque este negão aqui canta no México, onde uma cadeira custa US$ 100, e onde se respeitam igualmente comunistas e não comunistas." Não deu meia hora e chegou um burocrata do Partido Comunista para levar Bola e Contreras a um hotel nas montanhas, totalmente aparelhado, exclusivo para técnicos soviéticos.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Félix Contreras conta a história para ressaltar o espírito contestador de Bola de Nieve, que ele conheceu quando desfrutava de uma bolsa de estudos de artes em Havana. Todas as terças, Bola ia à sede da União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba, encontrar-se com o escritor Nicolas Guillén. Foi assim que, em um dia de 1961, Guillén o apresentou a Félix Contreras. Bola pegou no seu braço e disse: "Um jovem poeta? Ah, gosto muuuuito de jovens poetas!"

Quase 50 anos depois, aquele poetinha, Contreras, hoje com 70 anos, fala com orgulho da amizade. A proximidade o ajudou a desenhar um retrato polifônico. Sucesso no México, Madri, Buenos Aires, Lima e Paris, Bola de Nieve acalentava o sonho de se tornar ator, de ser estrela de teatro. "Gosto de pesquisar devagar. Agora se saberá mais de particularidades de sua vida, como a sua amizade com Adolfo Guzmán. Bola começou a se tornar célebre com o bolero No Puedo Ser Feliz, de autoria desse pianista e compositor. Por meio dos arquivos de sua irmã Raquel, pude saber que Guzmán mandou essa joia ao Mexico especialmente para Bola."

Bola de Nieve foi fiel à revolução cubana, à qual aderiu desde o primeiro instante. "Gente como Bola, sensível, culto, cheio de mundo, tinha que apoiar o primeiro governo cubano que levou ao povo a cultura, as artes, o pleno direito ao trabalho, a saúde, a educação", considera.

Contreras viu e aprovou o documentário recente El Hombre Triste Que Cantaba Alegre, de José Sánchez-Montes, sobre Bola de Nieve. "Como toda figura transcendente, Bola é "redescoberto" de tempos em tempos. Sobretudo nos países onde trabalhou." Ainda assim, concorda Contreras, Bola é usufruído principalmente por pequena elite em países como o Brasil, nunca chegando a público mais amplo.

Mas seu legado, num país de tradição ao piano (com nomes como Bebo e Chucho Valdés, Rubén Gonzáles, Rubalcaba) é imenso. "Ele foi influenciado pelos chansoniers, mas tinha um estilo muito característico e fechado, que não dava para pegar para modelo, fica evidente a fonte. Seus colegas têm medo da frase "lembra muito o Bola", ou pior ainda: "É imitação do Bola"", diverte-se. O livro Bola do Mundo terá fotos do cubano Luis Quintanal e tradução de José Luiz Rodrigues de la Hoz.

Redondos

100 dólares

o preço para ver Bola no México

3 irmãos

teve o pianista (dois ainda vivem)

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