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Humberto Werneck
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Inferno, ida e volta

Uma torrente de inveja, espero que benigna, despencou sobre minha encanecida cabeça quando relatei aqui momentos de bem-aventurança que o Senhor, ou alguém por Ele, me permitiu viver num resort já no nome paradisíaco, pois se chama Las Ventanas al Paraiso, em Los Cabos, no extremo sul da península mexicana da Baja California. Trivialidades, repito, como bebericar champanhe Moët&Chandon a bordo de um iate nas águas azulíssimas do Mar de Cortés.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h07

Se você está entre os que invejaram este escriba, homem de hábitos simples, chegada é a hora de saborear uma lasquinha de vingança: após aqueles dias em Las Ventanas al Paraiso, teve ele que partir rumo àquilo que seu companheiro de reportagem, o fotógrafo Jaime Bórquez, com muita propriedade, chamou de Las Puertas del Infierno. Regalem-se os ressentidos:

Domingo - Exaustos de tantos e tamanhos bons tratos, deixamos hoje Las Ventanas e, embarcados num espartano Gol, enveredamos Baja California acima, numa viagem que nos levará a Tijuana, na fronteira com os EUA. Com o bulício cosmopolita de Los Cabos para trás, mergulhamos no oposto disso, numa paisagem desértica, eriçada de cactos de até 4 metros de altura, que estendem teatralmente os braços para um céu quase sempre azul. O sol, aqui, brilha 350 dias por ano. Quando ele se vai, baixam nuvens - nuvens mesmo - de zancudos e bobitos, mosquitos aparentemente viciados em nossos inócuos repelentes citadinos.

Aqui em La Paz, a capital da Baja California Sur, não encontramos pouso menos lamentável que este hoteleco, o San Bernardino. Famélicos, saímos em busca de mesa, qualquer mesa, mas acabamos refluindo, em jejum, à nossa tosca hospedaria. Agora entendo por que o pessoal de Las Ventanas, na despedida, nos deu bolsas térmicas com bebida e sanduíches.

Segunda-feira - A Transpeninsular, em que viemos até Guerrero Negro, é uma desolação asfaltada. Placas à beira do caminho anunciam "mexican furniture", "laundry", "factory azteca", ranchos "for sale", mas não se vê vivalma. Dezenas e dezenas de quilômetros sem um posto de gasolina, uma borracharia, sem a bigodeira e o sombrero de um só mexicano. A impressão de macabro é acentuada pela silhueta dos urubus encarapitados nos cactos ou a devorar, no acostamento, reses atropeladas. (Quase matamos uma vaca). Nas margens, a ferrugem come carcaças de automóveis, como a deixar claro que na Baja California ferro velho não é bom negócio. Miríades de capillitas, pequenos memoriais funerários, sinalizam mortes passadas e, suponho, futuras também. Desço para ver uma em que jaz um fragmento do painel do Nissan no qual um infeliz Alberto González encerrou sua viagem terrena. Básico demais, o painel do nosso Gol certamente não mereceria tanto.

Encafuados no hotel Don Miguelito, melhorzinho que o de ontem, o Jaime e eu decidimos que, tendo feito 1.000 km de estrada, chega de Baja California. Não somos tão jornalistas assim. Agora só pensamos no convite que nos fez o gerente de Las Ventanas para dois dias de restauração antes de voltar para casa.

Terça-feira - Em Constitución, tocou-nos o hotel La Conchita, cujos horrores não se limitam às portas dos quartos, de lata a mais vulgar.

O melhor que vimos hoje foi Santa Rosalía, e, lá, uma igreja metálica projetada por Gustave Eiffel. Sou mais aquela torre que ele espetou no cartão-postal de Paris.

Uma placa exigiu parada: El Imposible. O nome do lugar eterniza a incredulidade dos locais quando um deles cismou de abrir um poço no deserto. Não é que encontrou água?

Quarta-feira - Aboletado no Ceviche Bar, conto ao jovem barman, Mario Lechuga, o caso do camarada que, sob descrença geral, cavucou o deserto atrás de água. Sorridente, ele retribui com a historinha de um casal de milionários que, neste mesmo balcão, pediu o que também parecia inalcançável: um hambúrguer para dois, só que bem passado para ele e ao ponto para ela. "Todo es posible", piscou o Mario, e foi à chapa.

Depois de ter atravessado as Puertas del Infierno sem suscitar mais uma capillita, e retornado a Las Ventanas ao Paraiso, com o que isso significa de paparicação do corpo e da alma (sem recaída de inveja, por favor!), tendo a achar que o Mario tem razão, que tudo, ou quase, es posible.

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