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Infeliz aniversário

A internet completou 28 anos no domingo e seu pai, o cientista de computador Sir Tim Berners-Lee,não viu motivo para comemorar

Lúcia Guimarãees, O Estado de S. Paulo

13 Março 2017 | 04h00

internet completou 28 anos no domingo e seu pai não viu motivo para comemorar. O cientista de computador Sir Tim Berners-Lee, criador da rede mundial, publicou uma carta aberta, na ocasião do aniversário, assustado com a delinquência de sua rebenta. O britânico pediu ajuda para o que vê como séria ameaça à liberdade de expressão, a disseminação de notícias falsas, que não devem ser confundidas com o que um certo presidente chama de fake news quando uma notícia lhe desagrada.

Sir Tim clicou na ferida: quanto mais o público se informa por um punhado de redes sociais e ferramentas de busca que são remuneradas pelos pares de olhos que atraem para um link, maior o estímulo para isolar o internauta numa bolha de confirmação de suas preferências.

Todo dia, bloqueio dezenas de bots, os robôs virtuais que passam a me seguir pelo Twitter. Um novo estudo revela que até 15% dos membros da comunidade do Twitter, ou 48 milhões, não são humanos, mas bots controlados por software. Nem todos são maliciosos, mas boa parte dos que aparecem na minha timeline são pornografia, trolls ou exibem fotos de pré-adolescentes.

Este envenenamento constante do cotidiano online erode a democracia ao nivelar a conspiração com o fato, a escatologia com a tragédia, a fome no Sudão com a família Kardashian. Há uma explosão de cursos de news literacy nas escolas americanas, que tentam alfabetizar adolescentes e jovens adultos para distinguir jornalismo de propaganda. É um resultado direto da campanha presidencial que foi parcialmente decidida pela desinformação. Antes mesmo de hackers russos invadirem o website do Partido Democrata para vazar e-mails, voluntários da campanha do Senador Bernie Sanders, um adversário forte de Hillary Clinton nas primárias, notaram a invasão de links com teorias conspiratórias e a trilha dos websites levava à Macedônia e à Albânia. Quando Hillary foi confirmada como candidata, os canhões virtuais se voltaram só para ela. A meta era dividir e distrair o eleitorado de centro e de esquerda.

Na carta aberta que publicou no site da World Web Foundation, Tim Berners-Lee identificou três problemas para os quais pede atenção imediata. Denuncia a perda de controle dos nossos dados pessoais, em parte uma consequência da troca faustiana que consumidores fizeram pelo grátis da Internet. Além de lamentar o armazenamento de dados em espaços privados sem filtro controlado pelo internauta, Berners-Lee alerta para o potencial de coerção em regimes autoritários que obtêm acesso aos dados de empresas sobre os cidadãos. Um senador americano que fez críticas severas à Wikileaks, na semana passada, notou, no sábado, tentativas de hacking de suas contas em várias plataformas. 

O cientista pede ação contra a facilidade de disseminar desinformação com uso de ciência de dados e bots para ganho financeiro ou político. Ele sugere um consenso para regulamentar a propaganda política online com um compromisso de maior transparência. “Eu posso ter inventado a web, mas são todos vocês que ajudaram a torná-la o que é hoje,” escreve Berners-Lee sobre a responsabilidade cívica de qualquer internauta.

O cientista político Joseph Nye, da Universidade de Harvard, acaba de publicar um artigo sobre segurança internacional e espaço cibernético em que usa o exemplo do tabu como forma de dissuasão contra ataques. Nye lembra que o uso de armas químicas na Primeira Guerra Mundial causou choque o bastante para gerar tratados e condenação universal de seu uso, ainda que Síria e Rússia tenham quebrado o tabu em território sírio. O professor Nye acha que é preciso um novo consenso internacional para criminalizar o ataque virtual, especialmente contra civis, como o hacking de uma geradora de eletricidade, e espera que a liderança venha da ONU.

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