Infância clandestina: filme inspirado na vida de Ávila

Há um parentesco óbvio entre o filme argentino Infância Clandestina, de Benjamín Ávila, e o brasileiro O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger. Ambos filtram os anos de chumbo de ditaduras militares latino-americanas por olhares "inocentes" das crianças.

AE, Agência Estado

07 de dezembro de 2012 | 11h02

Filhos de militantes que ou não entendem, ou entendem apenas em parte, as circunstâncias das lutas em que seus pais estão metidos. Ambos são ótimos filmes, diga-se de passagem.

Infância Clandestina é tão bom que, vindo de uma cinematografia bastante badalada como a atual da Argentina, foi escolhido por seu país para representá-lo no Oscar. Em seu tempo, o filme de Hamburger também foi designado pelo Brasil anos atrás. Parece haver, entre as comissões de seleção, a consciência de que o olhar infantil seja um fator que pode comover os tais "velhinhos da Academia". No caso do brasileiro, não deu certo. Em janeiro veremos se o argentino tem mais sucesso.

Aliás, Brasil e Argentina são coprodutores de Infância Clandestina. A presença do País no longa hermano se dá de maneira marcante. O paulista Marcelo Müller é corroteirista, junto com o diretor Benjamín Ávila. Eles foram colegas na Escuela de TV y Cine de San Antonio de los Baños, em Cuba. Dois atores brasileiros - a paraibana Mayana Neiva e o paulista Douglas Simões - juntaram-se ao elenco.

E o Brasil é o país por onde passa a família de montoneros, exilada em Cuba, que decide haver chegada a hora de regressar à Argentina para participar da luta contra a ditadura militar. São eles, o pai (Cezar Troncoso, de O Banheiro do Papa), a mãe (Natalia Oeiro), o menino Juan (o ótimo Teo Gutiérrez Romero), e mais o tio Beto (Ernesto Alterio).

Uma família clandestina, que se esconde atrás da fachada inofensiva de uma fábrica de doces, que fabricam e vendem. O próprio menino terá de mudar de nome - de Juan torna-se Ernesto -, além de arrumar sotaque de quem é proveniente da região de Córdoba.

Ávila conta que se inspirou na própria experiência de vida para escrever essa história. Ele mesmo foi filho de uma "família clandestina", que lutou contra a ditadura militar argentina e teve de exigir sacrifícios dos seus filhos. Sua mãe, Sara, foi presa e "desapareceu" em 1979. Ávila conhece na pele, portanto, o duro que é viver escondido, sob nome falso e ameaça constante das forças da repressão, com a morte sempre rondando por perto. E, nesse ponto, o longa argentino é bem diferente do brasileiro. Se em O Dia em Que Meus Pais Saíram de Férias a ditadura é apenas pano de fundo insinuado, em Infância Clandestina as circunstâncias da política latino-americana dos anos 1970 aparecem de frente, e sem disfarces, com toda a sua violência. É, nesse sentido, um filme mais político e mais engajado.

INFÂNCIA CLANDESTINA - Direção: Benjamín Ávila. Gênero: Drama (Argentina-Brasil-Espanha/ 2011, 112 minutos). Classificação: 14 anos.

As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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