Inércia Brasil

Uma das maiores dificuldades do observador cultural diante das cenas políticas brasileiras é não ceder à tentação do fatalismo ou do cinismo. Afinal, são tantas coisas que se repetem há tanto tempo que nos inclinamos a pensar que sejam "vícios insanáveis", como disse aquele político a respeito da amizade, ao justificar os usos particulares do dinheiro público. Lemos em autores como Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco e Sérgio Buarque de Holanda diagnósticos e advertências que, tanto tempo depois, não parecem nem sequer ter sido ouvidos, já que até mesmo os intelectuais preferem a parte otimista das obras de um Gilberto Freyre, Oswald de Andrade e seus herdeiros nas letras e artes. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar o que Octavio Paz disse da mentalidade dos mexicanos, que não se trata de uma essência, mas de uma história, ou seja, que a sucessão de eventos e decisões levou ao estado atual - não de modo irrevogável, mas profundamente imbricado no cotidiano.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

Uma das tendências que a história brasileira mais demonstra é essa dificuldade de enfrentar de modo mais sério e sistemático as questões realmente importantes não apenas nos momentos de crise. Em outras palavras, é preciso que a situação fique muito ruim de modo geral para que se tomem atitudes, num fenômeno sociocultural análogo ao da mania de deixar as coisas para o último instante, de adiar decisões até que a beirada do desespero obrigue a tomá-las. E, mesmo assim, os grandes marcos históricos brasileiros não raro cumpriram apenas parcialmente seu papel, embora Freyre tenha dito que as "revoluções" em nossa história tenham se dado de modo "suave", como a abolição da escravidão, a proclamação da República e outros momentos. (Infelizmente, Freyre o disse num artigo em que defendia a "revolução" do golpe militar de 1964.) Eu prefiro ficar com Raymundo Faoro, que sempre viu que temos uma "república inacabada", assim como Paz apontou a falta de pensadores iluministas na América Latina.

Essa dificuldade de lidar com os problemas a não ser quando mergulhados em forte crise, dificuldade que mostra a imaturidade, o traço adolescente da cultura brasileira (no sentido mais amplo da palavra cultura), tem sido recorrente nos últimos anos, principalmente a partir do momento em que a conjuntura internacional - com destaque para a alta dos preços das commodities e da demanda chinesa por soja, ferro e outros produtos brasileiros - passou a favorecer a economia brasileira, apesar dos dois trimestres recessivos em seguida à crise de 2008. Por mais medidas corretas ou espertas que tenha tomado, como a ampliação de créditos e bolsas e o aumento das reservas financeiras, o governo Lula basicamente surfou oito anos nessa onda de liquidez que bateu nas latitudes emergentes. Mesmo sem crescer muito, com média medíocre de 4% ao ano, houve, sim, um salto de patamar.

Com a economia indo bem, antes de mais nada livre do trauma que a inflação causou durante tanto tempo na psique nacional, os desafios mais complexos e lentos deixaram de ser enfrentados. Não apenas não se fizeram reformas determinantes como as que a tributação, a educação, a Previdência e a Justiça exigem, tal o custo social que elas impõem, mas também não se viu em nenhum momento alguma pessoa pública externar um projeto de país que fosse muito além do debate quase imediatista entre monetaristas e desenvolvimentistas, debate que perpassou os governos FHC e Lula e se refletiu apenas em ênfases específicas da política econômica. Temos, como resultado, uma economia que melhorou em alguns aspectos, mas que está cada vez mais presa à armadilha dos juros mais altos do mundo e da incapacidade de produzir com densidade tecnológica. Isto é, as questões sérias não são urgentes e, portanto, nunca passam do estágio de esboços politiqueiros ou balões de ensaio.

Daí a ironia de ver a presidente lançar algo com o modesto nome de Plano Brasil Maior, mais uma empreitada de marketing oficial que não vai resolver os problemas sérios da carência de investimentos, sobretudo em pesquisa, e da perda de competitividade da economia nacional. Ou então ver Dilma divulgar o Brasil sem Miséria, que apenas alega acrescentar alguma coisa ao Bolsa Família, mas que não passa de um aumento do orçamento assistencial, já que ignora prioridades de infraestrutura como o saneamento básico. Os brasileiros miseráveis não precisam apenas de uma ajuda monetária; precisam de condições para viver e trabalhar com um mínimo de dignidade. Ao final, o que esses planos anunciados com tanto estardalhaço não escondem é a velha aposta dos nossos governantes na inércia brasileira, aquela que diz que somos o país do futuro e estamos "quase lá" - uma questão de tempo e não de método.

É divertido, assim, ver a mídia falar na "crise do ministério", ainda que seja mesmo um escândalo a dimensão a que chegaram a corrupção e o tráfico de influência num governo que não completou nem oito meses. Para a maioria dos brasileiros, essa crise política nem é sabida ou importante; afinal, empregos continuam a ser gerados e, apesar dos sinais de desaceleração produtiva, o estímulo ao consumo não cessa, como qualquer usuário de site de banco sabe. Nos indignamos esterilmente ou então rimos das denúncias que povoam a esplanada de Brasília, mas isso não afeta em nada a proverbial crença do brasileiro de que está no melhor dos países e a caminho do primeiro mundo, ou quem sabe até de superá-lo. Basta continuar assim, com um ajuste aqui, um jeitinho ali, e tudo vai dar certo na nação menos secular do planeta. Se apenas uma crise profunda pode trazer algum senso crítico, seguimos à força da inércia, cantando "Deixa a vida me levar, vida leva eu"...

Rodapé. Por falar em pensadores iluministas, a Zahar acaba de lançar Cartas Iluministas, de Voltaire, com seleção e tradução de André Telles e Jorge Bastos. É um volume pequeno, de 230 páginas, perto da monumental produção epistolográfica do autor, mas as principais cartas - como aquelas em que critica Rousseau por desprezar as artes e as ciências - estão ali. Há muitos anos tenho o hábito de pegar uma seleta no original e ler algumas páginas, adiando o encerramento da leitura, de tão prazerosa que é, e temo que esse pequeno volume não dê a mesma sensação de convívio com um homem que, mais do que um filósofo, um autor de doutrinas, foi um estilo, o dono de um olhar todo próprio, ao mesmo tempo irônico e sereno, que nunca se bastou num só tema ou gênero porque nunca viu motivo para não ser livremente curioso.

De la musique. Não consigo parar de escutar as Suítes para Violoncelo de Bach na versão do instrumentista grego Dimos Goudaroulis. Há muitas versões magistrais dessas peças, inclusive do brasileiro Antonio Meneses, mas Goudaroulis trabalha com um violoncelo barroco, fabricado na França do século 18, e com as marcações originais da partitura feitas por Anna Magdalena. Isso significa um som mais seco, com pouco vibrato, de gestos amplos do arco, e ao mesmo tempo um som tão emocionante em sua continuidade quanto os modernos. Acho tolo debater se está ou não mais perto do que Bach queria; de qualquer modo, é um Bach muito próprio e também quintessencial.

Terpsícore. Infelizmente dou com atraso a nota sobre o novo espetáculo do Grupo Corpo, Sem Mim, cuja temporada se encerrou no domingo passado, mas não posso deixar de registrar. Embora tenha achado que não inova tanto quanto alguns comentaristas disseram, achei alguns números preciosos, principalmente os individuais ou em pas-de-deux, e o figurino inesquecível. O grupo nos acostumou tanto à sua alta competência que às vezes esquecemos a coragem que tem, como essa de adaptar o cancioneiro de Martin Codax em colagem de ritmos.

Cadernos do cinema. Fui ver A Árvore da Vida, de Terrence Malick, com alguma expectativa. Pelo jeito não fui o único, porque na metade do filme uma parte considerável da plateia tinha deixado a sala. A história é apenas sugerida e então o filme é tomado por uma sucessão de imagens do universo, da natureza e de células, além de uns espectros coloridos, e uma questão que poderia se converter numa obra interessante - que Deus é esse que nos tira um filho e nos causa tanta dor e ainda pede que sejamos bons? - se perde num registro de clipe evangélico, com os personagens na batida cena da praia ao final e a mãe dizendo que entrega a cria ao Criador. O problema não é só o ponto de vista; é o que o filme nos dá a ver, ou melhor, não nos dá.

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