Filipe Araujo/AE
Filipe Araujo/AE

Inegável valor do silêncio

Em novo livro de ensaios, autor destaca tradições que valorizam a contemplação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

O escritor moçambicano Mia Couto cultua a palavra como fonte de sobrevivência. "A escrita é uma casa que eu visito, mas onde não quero morar", afirma, em um dos ensaios que compõem E Se Obama Fosse Africano?, conjunto de "interinvenções" (como gosta de definir) lançado agora pela Companhia das Letras. "O que me instiga são as outras línguas e linguagens, sabedorias que ganhamos apenas se de nós mesmos nos soubermos apagar."

E foi assim, tentando inutilmente ofuscar a si mesmo, que Couto passou por São Paulo na semana passada, quando fez palestra em uma escola, iniciando uma excursão por outras capitais. Momentos em que também valorizou a importância do silêncio, como ressalta nessa conversa com o Estado.

O primeiro texto do livro é esperançoso, mas o último, que dá título à obra, é mais cético. Esse arco foi pensado ou casual?

Foi um acaso, mas foi certeiro. O que quero dizer nessas intervenções sem grandes pretensões é que a questão não está na dualidade entre crença e descrença, mas sim em interrogar a própria crença: temos de construir a fé na mudança do mundo antes mesmo de pensarmos. Quero dizer que o próprio pensamento não está certo: é preciso colocar em questão os instrumentos que nos levam a olhar o mundo.

Como é lidar com o fio que separa a ficção dos ensaios?

Trabalho exatamente para desvendar esse fio (risos). Gosto sempre de alertar que a linha de demarcação entre um e outro não existe. O trabalho de um romancista é tão solene e ligado à essência das coisas como o dos não ficcionistas. A narrativa está presente nos dois lados e é isso que importa.

Você acredita que a literatura tem poder de recuperar a cultura, especialmente em países mais necessitados?

No caso específico da África, vale a pena acreditar que a literatura permite aos cidadãos entenderem a si mesmos como sujeitos de outra imagem. Quero dizer que precisamos derrubar estereótipos como os que mostram a África apenas com berço da dança ou da música - lá também é um ninho onde se confecciona pensamento, filosofia. Sei que isso é difícil, trata-se de um território a se conquistar. O fato de a África produzir hoje escritores considerados bons não apenas por serem africanos mas por terem narrativas universais é uma conquista vital tanto para o mundo em sua relação com a África, mas também para os próprios africanos nas relações consigo mesmos. Um detalhe comum aos textos do meu livro é questionar a África que foi africanizada pelos outros.

Como assim?

Durante muito tempo, os africanos levantaram como bandeira esse exotismo porque rendia bem. Felizmente, hoje já existem algumas elites intelectuais que questionam isso e partem para outro caminho.

Você alterna o tema das palestras dependendo do local onde vai falar? Quero dizer, na Europa o assunto é distinto daqui?

Nem sempre, pois existe uma imagem que é universal: a da África vítima, marcada por fome, guerras, tribos. Isso é uma forma de retirar do continente sua própria condição histórica. A África acaba reduzida a uma única condição, sem direito à mesma multiplicidade que tem Europa ou América. Já no Brasil, existe uma relação quase fantasmagórica, uma ideia de redenção, de regresso a uma África perdida. Isso varia desde uma ignorância absoluta até uma catarse provocada pelo reencontro com uma África idealizada que vai curar as dificuldades de inserção no Brasil múltiplo, moderno. Isso não acontece na Europa.

Entre os diversos assuntos tratados no livro, há alguns muito delicados, como o que mostra a importância do silêncio.

Sim, existe hoje um grande medo do silêncio. Em um grupo, quando todos se calam, é preciso que alguém diga algo pois isso tem peso. Nas sociedades africanas que conheço, não há o medo do silêncio, pois não existe o sentimento da ausência: o silêncio está sendo ocupado, alguém está falando. Na verdade, trata-se da relação com a explicação religiosa de que alguém está presente sempre - até a mais absoluta solidão é povoada. Isso retira o medo do vazio, da solidão, algo que persegue nossa cultura ocidental.

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