Inédito de João Antônio: 'A um palmo acima dos joelhos'

Concluído provavelmente na década de 1980, mas mencionado em períodos anteriores, texto revisita infância do autor

João Antônio,

26 Outubro 2012 | 19h00

Você não brigue comigo, pequena.

E nem fique, sonsa, me encabulando com essa sedução de olhos mansos. Eu lhe conheço, dengosa.

Que você nem era nascida. Então.

Este calor derreia a gente, é fevereiro, começo de fevereiro no Rio, aguentamos mal e mal, pegajosos. E este suor.

Mariuska, não fique boba. Não se ponha, toda ciúme, fula, por aqui, me rodeando e a medo, me palpando, esse modo inseguro de agoniada. Seus olhos suplicantes saiam de mim. Não queira agarrar os meus joelhos com a boca para, depois, pousar a cabeça neles.

Não me pergunte com os olhos. Só estou perdido em mim, criatura, olhando a linha do horizonte.

Nada, pequena, bobagem, é um nada. Ou é muito.

Faz pouco, lá em cima, no apartamento, você fez a cena, feia. À toa, à toa.

Abri a porta do terraço. Olhar alguma coisa nos varais e nas plantas, este verão tosta e castiga, este solaço... dei com os pardais ciscando feito galinhas sequiosas ou meio ladrões, rápidos, numa agitação procurando alguma aguinha caída daquela com que reguei as flores.

Pulavam, precisados. Sofriam o calorão, vinham, gatunos, bicos abertos puxando a respiração. Então, uma alegria grande me entrou no peito. Eles são pequenos. E eu os saudei:

- Ô, pequenininho, você veio me visitar?

Voluntariosa, saída, ficou fera, ardida. Já lhe falei, o ciúme mata um. Rói e remói: é um-dois, verruma depressinha. Um-dois. Fique maneira. Nenhum sofrimento inútil. Estou tratando com os meus fantasmas, me deixe. Você, indócil, aguarde. Coração ciumoso, atrapalha, sua.

Ansiosa, tenha modos.

Qu’eu saiba ninguém dá jeito de domesticar um pardal, bicho avoado, entrão, toma o que é dos outros e em gaiola não vive. Dizem, os pardais também cantam. E só cantam quando estão em turma.

Nada a fazer com a pardalada. Deixá-los. Cumprem a sina que lhes é dada nas tardes e nas manhãs. Pardal nem anda; pula, pulula, andejo e voador, gorrião no mundo, os tenho visto por aí tudo, pardal urbano, sempre, inquieto, intrujão, metido, saído, mal lambido, bicão enfiando-se no que não é dele. E um, Mariuska, pode viver muitos anos, aqui, alhures, em Amsterdam, na China. Gatunam e, aí, gatunar é o modo deles.

Nem me pergunte, de olhos, olhando para eles e, após, indagando os meus olhos, para que servem o pardal e o gato. Bem. Eles servem para nada e, também por isso, são música do mundo.

Você me dança esses seus olhos vivos, que espetam e só faltam dizer.

Digamos. Há de ser sempre, sabe-se lá, um trabalho garimpeiro o de descobrir por que uma pessoa, tantas idas e vindas após, e tudo passa tão depressa, acaba só.

* * *

Ouça. Tenho cada lembrança lá do morro e você nem era nascida. A vida lá no alto não era ruim nada.

De pequeno, tropicava em alguns pedaços maus. Nada que me lembre do morro me chega sem os gostos. Será difícil esquecer o gosto de fel de chá para os rins, chá de carqueja empurrado goela abaixo pelas mãos de minha bisavó Júlia, apelidada Lula pela gente miúda, penca de bisnetos amulatados, mequetrefes, molecadinha impossível. Vó Lula, escura e geniosa, cabelos lisos mamelucos, quem sabe, na mocidade, sensual e com certeza supersticiosa e de arroubos imprevisíveis, acostumada mandona. Tratava filhos, uns trezes, netos e, depois, a bisnetaiada pela homeopatia. Os doentes não tomassem café.

Não brilhei, fui razoável. Havia o campo de malha, o de bocha e o campinho de futebol, onde virei centro-médio. Não, corria um tempo em que não existia meia-armador. Era centro-médio. Chutava com os dois pés, cobria o meio de campo, recuava ou avançava conforme o andado do jogo e os mais atilados na posição, houvesse brecha, cavavam espaço e, pontudos, faziam gol. Eu, destro. De assim, para compensar, me treinei repetido e solitário, e tanto, na perna esquerda que, na sequência, pendia para abrir, armar jogo, lançador por aquele flanco. Bem.

Quando a luz elétrica nos veio, o morro teve dois rádios por onde a vida do mundo, lá de fora, barulhava e chegava. Um, o rádio enorme da venda de dona Otília e de seu Augusto; outro, menor e simplezinho, da minha tia-avó Elisa, carioca, asseada, um capricho na organização. Os dois novidadeiros trazendo notícias, humor, radionovela, Jerônimo, o herói do sertão, Nhô Totico, a PRK 30, mel em chuvada de riso, que a gente alcançava do Rio de Janeiro, Maria Joaquina Dobradiça da Porta Baixa, portuguesa, espeloteada, casca-grossa e tão mangada. Terminavam os números musicais, uma voz ajuntava: entra o disco das palmas. Desabava o auditório e desabávamos no morro. Aqueles dois animadores foram primeiros; devo ter aprendido com eles que, de algum jeito, é preciso rir de si mesmo.

Irradiação dos jogos de futebol, paixão. Febre mosqueteira, que o morro era, maioria inflamada, corintiano roxo e sabia, de cor e salteado a escalação preta e branca, que terminava na linha de ataque: Cláudio, Luisinho, Baltazar, Carbone e Mário. Ou Souzinha, dependendo, na extrema esquerda. Dessa linha atacante, cada minúcia sutil e muito singular, cada um de nós, molecadinha do morro, falaria uma semana. E, depois, mais uma.

O que nos chegava. E vinham pela música as novas de outras terras, baianas, nordestinas, cariocas, nos fazendo imaginar, enfeitiçados, meio aos suspiros, mordidos de curiosidade, uma porção de vidas diferentes, nossas desconhecidas e mais rurais. Havia baianos e cariocas no morro e, na empolgação deles, embarcávamos, mordidos.

Não éramos tão urbanos. Para final, fazíamos paçoca no pilão, nossos curaus e pamonhas doces e não salgados como se diziam que eram os do Norte… a paçoca do morro, veja lá, levava carne pilada, o charque, o jabá. Essa, de carne-seca, era daqui. Da ponta da orelha.

Batíamos o café em grão comprado nos armazéns na estrada de ferro. Tínhamos o cuscuz paulista, com palmito, ovo, camarão ou sardinha ou galinha, meio caiçara e admirado, falado. Invejado, sabíamos. Salgado, era primor, distinto do baiano, que é branco e doce. E do pernambucano - outra coisa. Bom mais ainda com manteiga, da salgada. Havendo manteiga-de-garrafa, se lambiam os beiços e se comia até ficar triste. Fazíamos a carne-seca com mandioca cozida quase desmanchando, e não frita.

E não fique aí boba, pequena. Que tínhamos forno em que fazíamos pão de milho, broa de fubá, biscoito de araruta, bolos de farinha de trigo, assados em dia de festa. Havia cabritadas no morro e Vó Lula, prevenida, alma de quituteira, pedia aos santos nas vésperas paz para esses dias. Cabritada era risco.

Poder, podia escorregar, destrambelhar para malsucedida armando brigas, ingresias, desfeitas, mexidas, confusões. Fuá. Podia dar bode num forrobodó-de-cuia, rebordosa arrevesada, uma cabritada. Então, devagar com o andar, que o santo é de barro. O seguro morreu de velho, mas a prudência foi ao enterro. Rogar aos santos, assim, era de lei.

Doce de marmelo, de goiaba, de laranja, de abóbora, de cidra, de limão, de coco, bananadas, ameixadas de ameixa amarela e não da preta fumegavam no fogão a lenha e Vó Lula, pontificou plena, principal. Esclarecia. Para a cozinha era preciso mão. Ninguém se gabasse diante dela, que mãos cutubas tinha ela, mãos de rainha, dona, adonada, sabedora.

 

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