Indo e vindo

Procurávamos um lugar na Toscana cujo nome eu esqueci. Paramos para pedir direções a um velho na beira de estrada. Ele curvou-se para ouvir nossa pergunta e, quando eu disse o que procurava, aprumou-se e fez um gesto largo na direção de uma cidade no topo de um morro, à nossa frente.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

- Ecola! - disse.

Era como se anunciasse a entrada de uma diva em cena.

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Há anos que procuramos uma besta mitológica, o motorista de táxi mal-humorado de Paris. Já ouvimos muitas histórias de horror a seu respeito - seu emburramento, sua impaciência com estrangeiros, sua estupidez congênita - mas nunca o encontramos. Cada vez que pegamos um táxi em Paris é com a expectativa de que, este sim, vai ser um monstro. Ainda não aconteceu. O motorista é sempre cortês, quase sempre até simpático. Mas não abandonamos a busca. Ele tem que existir. Em Nova York, todos os motoristas de táxi estão sempre falando no seu telefone celular. Todos, o tempo todo. Só o que varia é a língua em que falam. Algumas são reconhecíveis, outras não. Nenhuma é o inglês.

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Falando em motoristas. Fizemos um tour da cidade do México de automóvel com um motorista guia e três velhinhas americanas. O guia era um típico índio mexicano e conquistou as velhinhas de saída. Disse que seu nome era Raul Cordero de Dios que Quita los Pecados del Mundo, sabendo que os nomes compridos dos latino-americanos sempre divertiram muito os americanos. E depois anunciou:

- Sou o segundo melhor guia do México.

- Quem é o primeiro? - quis saber uma das velhinhas.

- Morreu na semana passada.

"Wonderful!", disseram as velhinhas.

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Há alguns anos, em Nova York, não me deixaram entrar num restaurante francês só porque a jaqueta que eu estava vestindo, de tão velha e usada, rangia cada vez que dobrava o braço. O maître que nos barrou a entrada chegou a segurar a gola da jaqueta entre o polegar e o indicador e, num tom conciliador, perguntar: "Você não tem outro casaco, não?" Pensei em responder: "Tenho sim, mas este eu não dou, não insista" - mas só pensei isso a algumas quadras de distância. A primeira coisa que fiz ao voltar a Nova York algum tempo depois foi ir de novo ao tal restaurante, o "Clos Normand". Mas de terno novo, gravata e aquele ar superior de quem usa maître francês para limpar os sapatos. O maître (era o mesmo) nem ousou me olhar nos olhos, quanto mais examinar minha roupa. Nos levou para uma ótima mesa, onde eu resisti à tentação de esfregar os talheres com a ponta da gravata, com cara de nojo, para desagravar minha jaqueta. Que, por sinal, eu ainda uso quando quero ficar sozinho. Em tempo: o "Clos Normand" não existe mais. Eu ainda estou aqui. Melhor dizendo: ali-ali.

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Ir a Londres e não comer "roast beef" era como ir a Roma e não comer o papa. O que eu estou dizendo?! E não comer fettuccine. Escolhemos o mais tradicional rosbife da cidade, o do Simpson"s on the Strand. O lugar estava, literalmente, caindo aos pedaços. Um pedaço da cadeira saiu na minha mão quando eu a puxei para sentar. Os garçons, certamente veteranos de muitas guerras coloniais, ostentavam velhas manchas nos seus casacos brancos como emblemas de respeitabilidade. O que nos servia não tinha dentes, a comunicação era difícil, mas como quem vai ao Simpson"s só pode querer rosbife limitamos nosso diálogo a duas palavras e o nome do vinho. Os carrinhos com grandes domos prateados transportando os troncos de rosbife cruzavam-se cerimoniosamente no imenso salão como barcaças festivas no Tâmisa. E eu esperava que a qualquer momento entrasse alguém com a notícia da morte do Rei Eduardo.

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