Indignação recreativa

Falar mal de uma companhia aérea é hoje tema obrigatório para a militância de poltrona

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2017 | 03h00

Quer se tornar popular na rede social? Fácil. É só falar mal de uma companhia aérea ou contar o caso do maltrato de um passageiro. O Facebook e o Twitter são plataformas ideais para a chamada indignação recreativa, também conhecida como militância de poltrona, e a via-crúcis em que se transformou o transporte aéreo é um dos condutos preferidos para desafogar as afrontas do cotidiano.

Muito antes do escândalo planetário protagonizado pela United Airlines, no dia 9 de abril, quando o médico David Dao foi ferido e arrastado aos berros de um avião da empresa em Chicago, a ira dos passageiros já vinha fervendo. E esta temporada está rica em incidentes com difusão imediata graças os vídeos de celulares, como no caso da argentina atingida por um comissário de bordo da American com o carrinho do bebê que segurava no colo. E houve o coelho gigante que morreu transportado pela United. E mais a família expulsa de um voo da Delta porque não podia colocar o filho pequeno num assento pelo qual havia pago. Noticiar incidentes de passageiros com tripulantes ou entre passageiros, como a briga de socos gravada num voo da Nippon Airlines de Los Angeles para Tóquio, na semana passada, pode manter uma repórter ocupada em tempo integral.

O anedotário dos incidentes tende a se concentrar nos Estados Unidos, pelo gigantismo de seu transporte aéreo – 823 milhões de passageiros voaram em empresas americanas em 2016. Mas há outro problema. A aviação comercial nos EUA se transformou num oligopólio. No ano 2000, dez empresas dominavam 80% do mercado, hoje são apenas quatro. E estão faturando alto, cobrando por comida, bagagem, diminuindo o espaço entre a maioria dos assentos para cobrar por mais espaço em algumas filas. Sem concorrência, praticam o infame overbooking, responsável pela violência com o Dr. Dao, que se recusava a ceder o assento pelo qual tinha pago.

Mas a insatisfação com voar de avião é apenas um sintoma do que tem sido resumido numa expressão cada vez mais usada por aqui: late capitalism, ou capitalismo tardio. Na semana passada, a jornalista Annie Lowrey publicou um excelente exame da popularidade de late capitalism, que conta com páginas no Facebook, grupo de discussão no Reddit e é um hashtag bombando no Twitter. A noção, não a expressão, foi proposta por Karl Marx para prever o estágio em que a concentração de poder econômico entre um número menor de corporações seria o caminho de autodestruição do capitalismo. A expressão, usada pela Escola de Frankfurt, com figuras como Theodor Adorno, apareceu primeiro na década de 1920 e acabou popularizada entre marxistas da segunda metade do século passado.

Mas quem googlar “late capitalism” vai compreender o apelo da expressão nestes tempos de ressentimento pela globalização e de apelo populista tanto da direita pró-Brexit como dos seguidores de Bernie Sanders, hoje o político eleito com maior índice de aprovação nos EUA.

O crash de 2008, seguido da pior recessão desde a década de 1930, contribuiu para este mal-estar generalizado e inspirou o movimento Occupy, que, apesar da falta de liderança e de programa político organizado, apontava para o que via como disfunção do capitalismo tardio.

Enquanto escrevo, imagens de festa em Paris desfilam na TV. O Twitter explode em manifestações de alívio de americanos ainda de luto com o resultado de novembro. Nesta segunda-feira, vamos ler análises eufóricas sobre a vitória de Emmanuel Macron. Mas o fato é que a Frente Nacional de Marine Le Pen conquista mais votos a cada eleição. A ressurgência do fascismo continua e o abalo das instituições políticas em vários continentes por autocratas com votos segue triunfal. Indignação recreativa não cria resistência a este cenário.

Mais conteúdo sobre:
Estados Unidos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.