Indiciado chefe da Biblioteca Nacional francesa

O conservador chefe do departamento de manuscritos da Biblioteca Nacional da França, Michel Garel, foi afastado de suas funções e indiciado por roubo pela Justiça, suspeito pelo desaparecimento ou mutilação de pelo menos cinco manuscritos, textos religiosos dos séculos 13, 14 e 15. Trata-se de um grande especialista, homem respeitado nessa área, cujos méritos permitiram que ele se mantivesse desde a década de 80 na direção dos fundos de manuscritos hebreus da Biblioteca Nacional, constituído a partir do século 15 e considerado um dos mais ricos do mundo. A venda de uma Bíblia do século 14 por 300 mil, através da Christie´s de Nova York, a um comprador estrangeiro, mas com todas as autorizações para a saída do documento do país, permitiu à polícia chegar até Michel Garel, de 56 anos, que imediatamente confessou o roubo de pelo menos um dos manuscritos. Esse caso tem um precedente célebre, o do conde Libri-Carucci, famoso matemático que se tornou também, em 1850, um dos maiores especialistas em pilhagem de bibliotecas francesas, entre eles o manuscrito da Divina Comédia, de Dante, além de desenhos e escritos de Leonardo da Vinci. A confissão surpreendeu seus 400 colegas da Biblioteca Nacional da França, na Rue Richelieu em Paris, onde os manuscritos são mantidos, além de provocar um choque em toda a comunidade dos 1.800 conservadores franceses. Os agentes da Brigada de Repressão ao Banditismo o detiveram na semana passada em seu gabinete, no coração histórico de uma das mais famosas bibliotecas da Europa. O presidente da BNF, Jean Noel Jeanneney, decidiu tornar público esse desaparecimento dizendo não estar disposto "a ceder à tentação de empurrar a poeira para debaixo da porta". Ele já havia sido advertido, por carta anônima, desde o ano 2003, quando da venda, em Nova York, de um manuscrito hebreu do século 14. Tratava-se do Manuscrito 52, destacando-se as Lições do Profeta, Lamentações e O Eclesiasta. Esse manuscrito havia desaparecido em 2000 e a queixa apresentada não havia dado em nada. Em 1998, quando da transferência das obras e documentação da Rue Richelieu para o novo prédio da Biblioteca François Mitterrand, houve mal-estar entre os conservadores quando se constatou o sumiço de uma centena de documentos, suspeitando-se que outros documentos importantes possam ter também desaparecido na confusão estabelecida entre o que devia partir e o que deveria permanecer na antiga biblioteca. A própria direção da Christie´s de Paris reconhece as dificuldades enfrentadas pela direção para controlar o comércio envolvendo obras roubadas. Agora, o problema é como recuperar esse famoso Manuscrito 52, pois seu proprietário, segundo a polícia, é um homem de boa-fé, não vai ceder sem que possa ser reembolsado dos US$ 300 mil pagos regularmente. Quanto à biblioteca, ela não tem recursos para tal indenização.

Agencia Estado,

06 de agosto de 2004 | 12h44

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.