Robyn Beck/AFP
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Indicados são também melhores de 2010

O que não livra a Academia de Hollywood das tradicionais injustiças

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

É o que mais impressiona nas indicações para o Oscar - como a Academia de Hollywood odeia Christopher Nolan, ou então seus integrantes acreditam que o tipo de cinema que ele faz (o blockbuster cabeça) é pura fantasia, não se pauta pela responsabilidade social. Mesmo tendo feito um dos filmes mais ricos e críticos sobre o próprio cinema nos últimos tempos - A Origem -, Nolan não foi indicado para o Oscar de direção. Mas A Origem concorre, vamos concordar que sem muitas chances, ao Oscar de melhor filme.

O grande vencedor de indicações foi O Discurso do Rei, de Tom Hooper. Só a partir do trailer você pode apostar que Colin Firth vai receber o prêmio de melhor ator. Além de ter perdido anteriormente por O Direito de Amar, de Tom Ford, Firth interpreta agora um rei britânico (George VI) e, ainda por cima, um rei disléxico, que precisou de tratamento para superar seus limites. São dois elementos aos quais a Academia não costuma resistir, e numa só interpretação - o prestígio e o efeito terapêutico. Colin Firth vai levar.

O próprio filme, O Discurso do Rei, é recordista de indicações, com 12. Na recente votação do Producers Guild, a Liga dos Produtores, O Discurso bateu o favorito A Rede Social, de David Fincher, e pavimentou seu caminho para os prêmios da Academia. Normalmente, A Rede Social teria tudo para ganhar. Além do prestígio de numerosos prêmios de críticos nos EUA, o filme de Fincher tem tudo a ver com o momento atual, dominado pela tecnologia, mas carente de relações afetivas verdadeiras.

O bom é que, agora com dez indicados, o Oscar de melhor filme está conseguindo abarcar os melhores lançamentos de 2010 - A Origem, A Rede Social, Toy Story 3 (de Lee Unkrich), Cisne Negro (Darren Aronofsky), O Vencedor (Charles Russell) e Minhas Mães e Meu Pai (Lisa Cholodenko). O Oscar de melhor atriz será disputado entre as favoritas Natalie Portman (Cisne Negro) e Annette Bening (Minhas Mães). O de ator, embora pareça destinado para Colin Firth, terá mais dois concorrentes extraordinários - Javier Bardem (Biutiful) e Jesse Eisenberg (A Rede Social).

Os franceses devem estar indignados. Além de Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, o maior sucesso de público e de crítica do cinema da França no ano passado, ter sido rejeitado, O Fora da Lei, de Rachid Bouchareb - detestado pela direita e recebido com reticências pela críticas -, ficou entre os cinco, representando a Argélia (mas foi feito na maioria com dinheiro francês). A indicação de Biutiful, de Alejandro González-Iñárritu, consagra um filme sólido (o melhor do diretor mexicano?) Já que Javier Bardem não vai levar (Colin Firth, etc.), um prêmio para Biutiful será, indiretamente, um prêmio para o sr. Penelope Cruz, porque ele, realmente, faz a força do filme de Iñárritu. Mas não se pode esquecer que a dinamarquesa Susanne Bier já ganhou o Globo de Ouro por Em Um Mundo Melhor (e o filme dela é bom).

O Brasil ficou fora da categoria de filme estrangeiro, mas tem um pesinho na categoria de documentário com Lixo Extraordinário, sobre o artista Vik Muniz, que realiza suas obras de arte a partir de entulho recolhido do Jardim Gramacho, o maior aterro da América Latina, no Rio. Embora João Jardim tenha captado 70% das imagens (o porcentual é dele), o crédito de direção ficou com Lucy Walker e Karen Harley. Lixo Extraordinário, de qualquer maneira, não é o concorrente mais forte para o Oscar de documentário. Exit Through the Gift Shop, que abriu Berlim no ano passado, com direção e interpretação de Banksy, é muito melhor.

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