Editora Capivara
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Independência de quem?

Para a Igreja, interessava a evangelização de indígenas e negros, considerados infiéis

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2021 | 03h00

Parei de chamar meus filhos de “moleques”, quando descobri que era assim que designavam jovens negros e negras africanos escravizados, os preferidos do Tráfico Negreiro. 

A escravidão moldou o mundo. Nos EUA, deu em guerra civil. Países como Portugal, Inglaterra, Espanha, França e Brasil fizeram fortunas vendendo jovens negros. Países Baixos, escandinavos, até a Suíça, participaram do negócio, que durou quase 400 anos e foi abençoado por Roma, que hoje chamamos de Vaticano graças a Mussolini; como primeiro-ministro, ele transformou em 1929 o enclave de 44 hectares da Igreja Católica em cidade-Estado independente.

Para a Igreja, interessava a evangelização de indígenas e negros, considerados infiéis. Especialmente os africanos, na sombra da religião muçulmana, que atravessava o Saara. 

Os missionários pegaram carona nos interesses econômicos das monarquias europeias pelo Novo Mundo. Para entender a história brasileira, basta seguir o caminho da escravidão. Laurentino Gomes a aborda em três volumes. Lê-los é tão fundamental como ler um livro de História do Brasil. 

Na formação econômica e social do País, via ciclos do açúcar, tabaco, couro, ouro, diamante, café, a prata do Peru, cujos mineiros escravizados eram vendidos no Rio de Janeiro, até o algodão, paradoxalmente a matéria-prima da Revolução Industrial, tinha tecnologia e mão de obra escrava.

Igreja e Estado eram uma coisa só. Se Roma levantava o polegar para a escravização, ela seguia em frente. As “peças”, como eram chamados, eram batizadas na África ou em portos brasileiros. Dom João II ordenou que escravos fossem marcados a ferro em brasa com o símbolo da coroa portuguesa, como prova de que o imposto real tinha sido pago.

Posteriormente, Dom João IV substituiu a marca de ferro por uma argola pendurada no pescoço. Marcavam com ferro em brasa as iniciais do proprietário ainda nos leilões no desembarque. Era chamado de “carimbo”, palavra que vem do quimbundo, língua banto de Angola: ka + rimbu.

Ordens religiosas possuíam escravos. Em 1756, foi adotada uma lei que obrigava os “navios negreiros” a terem capelães a bordo, para administrarem o sacramento. Padre Luís Brandão, reitor do Colégio de Luanda, escreveu: “Mesmo que vivemos aqui já faz quarenta anos e temos entre nós padres muito doutos, nunca consideramos este tráfico como ilícito. Os padres do Brasil também não, e sempre houve, naquela província, padres eminentes pelo saber. Assim, tanto nós como os padres do Brasil compramos aqueles escravos sem escrúpulos”.

Poucas vozes se levantaram contra. “O missionário italiano Gabriel Malagrida (1689-1761), que tendo também contestado os métodos utilizados no Brasil em relação aos negros e por causa das suas ideias e oposição ao Marquês de Pombal, foi queimado vivo pela inquisição em Lisboa”, afirma o filósofo teólogo da Universidade Católica de Pernambuco, Sergio Douets Vasconcelos. 

A Igreja foi conivente e usufruiu da escravidão que destruiu aldeias e nações milenares na África. Na costa, europeus davam armas, tabaco e bebida alcoólica para reis africanos invadirem reinos vizinhos, destruindo a indústria de manufaturados, a agricultura e pecuária. O continente ainda hoje paga o preço pela ganância do branco.

Estudar a escravidão deveria ser prioridade no ensino. Toda obra de Luiz Gama, negro, advogado abolicionista, que alforriava escravizados, acaba de ser lançada (Editora Hedra). Ele partiu da própria experiência de escravizado até os 18 anos, vendido pelo pai branco.

A Companhia das Letras publicou o catatau de Pierre Verger, Fluxo e Refluxo, quase um tratado econômico das empresas de tráfico escravo, que tinham ações na bolsa, como a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, Companhia Real Africana, Companhia Geral do Brasil, que traziam negros da Mina, Costa do Benin, para plantações de tabaco na Bahia e, depois, extração de minérios. 

Depois de visitas à África, ele escreveu como os reinos negros de Daomé, Aladá, Onim e Oió se digladiaram. Laurentino conta como a corte de Daomé desfilou com toda pompa por Salvador numa missão comercial. Sua commodity? Gente, em troca de tabaco e pólvora. 

Conheci membros de um movimento negro na USP, na virada dos anos 1970-80. Alguns eram elegantes como Malcom X. Diziam que o ensino universitário e a ciência que tínhamos eram a do branco. Contestavam o pensamento ocidental. 

Ninguém os entendia. Sim, Gilberto Freyre e a mística democracia racial são questionáveis, mas e os outros? Demorei décadas para entender. 

Nem entro no mérito dos Bandeirantes. Quer um exemplo? Comemora-se a independência de quem em 7 de setembro? A metade da população era escrava. E continuaram a chegar mais escravizados até 1850.

O Brasil continuou unificado, assistindo à fragmentação da América Espanhola, graças ao pacto corrupto entre monarquia e elite agrária, que não queria a abolição. A aristocracia tapou os olhos para o que acontecia no mundo. Tarde demais. A República e movimentos abolicionistas os atropelaram. Por sorte, continuaram com a cabeça grudada no pescoço. E nós, com a maldita herança de uma sociedade racista, escravocrata.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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