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Em audiência, acadêmica lembrou de ataque sexual de juiz federal cometido em 1982

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 02h00

É viva a memória do estampado no vestido que usava naquela tarde, quando o homem se masturbou ao meu lado no cinema. Eu tinha 8 anos e era a última sentada à esquerda ao lado de quatro ou cinco amigas e um adulto. Sei que foi no antigo cinema São Luiz, na Rua do Catete. Tenho vaga lembrança de que éramos acompanhadas pela mãe de quatro meninas que moravam do outro lado da rua, no bairro do Flamengo. 

Não me lembro do título do filme. Afinal, a agonia se estendeu interminável e eu, apavorada, olhava para baixo, para meu vestido de malha verde-abacate com estampado em tons de marrom. É possível que minha mãe, que morreria no ano seguinte, já estivesse internada e a pessoa adulta nos acompanhando não era próxima o bastante para eu ter coragem de pedir ajuda.

Tenho certeza de que nada revelei sobre aquela tarde a qualquer pessoa. Tenho absoluta certeza do que aconteceu. E a duração do abuso se deveu ao fato de que nunca tinha visto um pênis ereto ou alguém se masturbando. Quando o homem usou sua perna direita para apertar a minha perna esquerda, fiquei confusa. Olhava aquele objeto entumecido no escuro e não conseguia compreender a agitação do homem. Sentia repulsa, mas saí do cinema sem entender completamente o que havia acontecido. Só ficou claro anos depois.

Não importa aqui como este incidente, que só terminou perto de acenderem as luzes do cinema, me afetou. Sou avessa à autopiedade pública. Houve outro, menos danoso, com um professor de meia-idade, quando tinha 16 anos. Nada aconteceu porque eu era tão estúpida e desligada que ele ficou exasperado e desistiu da conquista. Não devia ter coragem para violência, testava a menor adolescente para ver se cairia na sua piedade romântica.

Nunca, até hoje, mencionei o que narro aqui, nem em sessões de psicanálise, no final da adolescência. Só alertei, antes de publicar, a única pessoa da minha família que tem direito de saber primeiro. E sinto desconforto com jornalismo confessional.

Ao final da manhã de audiência no Comitê de Justiça do Senado americano, na quinta-feira, as memórias voltaram. Uma acadêmica tímida de 51 anos relembrou em detalhes de um dia em 1982 e contou ao país em suspense sua história com certeza “de 100%”: o hoje juiz federal indicado para uma vaga na Suprema Corte, bêbado, na companhia de um amigo, a empurrou para um quarto, trancou a porta, subiu o volume da música e tapou sua boca enquanto tentava despi-la.

Em seguida, ouvi a defesa do juiz, feita num tom e linguagem que o desqualificam para qualquer corte, de acordo com o código de ética da classe. E lembrei de outra expectativa de impunidade. A do professor da prestigiada escola de artes que, numa conversa ao fim da aula particular, falou de sua juventude. Num tom que oscilava entre leve arrependimento e bravata, ele contou, “participamos até de curras!”. Tinha 17 anos, fingi entender e, em casa, corri para procurar ‘curra’ no dicionário – estupro com participação de mais de um agressor. Por que, um homem mais velho, um artista educador se sentia seguro confessando que fizera parte de estupros coletivos? 

Minha experiência na quinta-feira, aparentemente, foi comum. Só nos Estados Unidos, a linha de telefone grátis para denúncias ou desabafos sobre agressão sexual recebeu 200% mais chamadas nas primeiras 24 horas após o depoimento da professora Christine Blasey Ford.

Enquanto escrevo, e o drama nacional da nomeação do juiz avança com tal velocidade que este fato pode mudar, descobrimos que a Casa Branca colocou uma camisa de força na reabertura da investigação do FBI sobre o juiz, autorizada à última hora, na sexta-feira. O FBI conduz entrevistas de rotina com candidatos à Corte e encerrou a deste juiz antes de saber da denúncia da professora. Há duas outras acusadoras. Julie Swetnick, assinou uma declaração juramentada afirmando que esteve em festas em que o juiz era sexualmente agressivo e numa das quais foi estuprada por vários rapazes, não por ele. Ela pediu para depor ao FBI, a Casa Branca vetou. Mentir para o FBI é crime que dá prisão.

No sábado, o FBI entrou em contato com Deborah Ramirez, que acusa o juiz de, em outro estupor alcoólico, empurrar o pênis sobre seu rosto, já adulto, na Universidade de Yale. Tanto Ford, quanto Ramirez mencionaram as gargalhadas dos que as atormentavam, uma memória “indelével”, disse a professora. Sabiam que ficariam impunes. Até quando?

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