Incontidos contistas

Sugestão de Otto Lara, jurado de um concurso: despejar sobre BH aquele montanha de contos

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 02h00

Volta e meia me lembro de uma entrevista que fiz com o escritor Roberto Drummond, no final dos anos 70. Eu era editor-assistente da Veja e estava preparando uma daquelas reportagens ambiciosas para as quais é preciso ouvir uma pequena multidão. O assunto? Quatro décadas depois, não me ponha no aperto. 

Em meio ao papo, o falecido Roberto, com uma ênfase que era muito dele, afirmou não existir no Brasil cidade mais estimulante para um escritor do que Belo Horizonte. E desfiou, veemente, razões escoradas na convicção geológico-literária de que a Serra do Curral, que emoldura a capital de Minas, teria eflúvios benéficos para a criatividade dos autores da terra e a excelência de sua produção. Ah, agora me lembro: a reportagem, que nem sei se chegou aos finalmentes, era sobre uma suposta compulsão dos nativos das Gerais para a criação literária. 

Ao voltar para São Paulo, não estava nem um pouco convencido do que ouvira do Roberto. Também eu provocador, chegara a lhe dizer, como quem sacasse um argumento sério: a ser verdade o que ele sustentava, a literatura das Gerais corria o risco de secar, pois mineradoras estavam a roer a Serra do Curral – com tal esganação, que nas ruas de Belo Horizonte milhares de automóveis faziam circular um alerta já tardio: “Olhe bem as montanhas”. 

Fui adiante na provocação: se a serra era tudo aquilo, como explicar que a voracidade das máquinas comedoras de minério, justo naquele momento, encontrasse apetite equivalente nas máquinas de escrever – das quais, zombava-se no eixo Rio-São Paulo, jorravam catadupas de contos, numa incontinência literária que levara ao surgimento de uma figura caricata, a do “contista mineiro”, personagem da pena galhofeira, entre outros, do colunista Telmo Martino, no Jornal da Tarde?

Folclore à parte, alguma ponta de verdade havia na murmuração maldosa. Escrevia-se pelos cotovelos em Belo Horizonte, e fazia tempo. Nos anos 60, eu próprio contribuíra para o aluvião contístico, sem ombrear jamais com criadores finos como Sérgio Sant’Anna, Luiz Vilela, Jaime Prado Gouvêa e Duílio Gomes, companheiros de geração que levariam adiante a construção de obra hoje conhecida e reconhecida. 

Por aquela época, entre dois chopes no inescapável Pelicano, ouvi de um comparsa uma avaliação não de todo destituída de cabimento: em Belo Horizonte, a literatura era uma forma de suprir vivências que o provincianismo vigente não favorecia, quando não interditava. Dito de maneira menos tortuosa: se em Minas se escrevia muito, era por falta de outra coisa pra fazer. Na impossibilidade de soltar-se na vida, como julgávamos acontecer no Rio e em São Paulo, a você restava delirar no papel.

E haja papel para tanto delírio. Foi também como repórter da Veja que presenciei, em agosto de 1977, uma cena que talvez não tivesse ocorrido se não estivéssemos no auge do flagelo e da flagelação do tal “contista mineiro”. 

O Unibanco havia promovido um concurso nacional de contos, e naquela tarde, no Rio, a comissão julgadora estava reunida para anunciar os vencedores, que além de prêmios em dinheiro teriam seus trabalhos publicados em livro. 

Ainda posso ver, ao redor da mesa, Otto Lara Resende, Antônio Houaiss, Lygia Fagundes Telles, João Antônio, Ignácio de Loyola Brandão, Geraldo Galvão Ferraz e, representante do banco, o diplomata Marcílio Marques Moreira. Também do Unibanco, ali estava o poeta Antonio Fernando De Franceschi, na condição, se não me engano, de criador e organizador do concurso. 

Endiabrado, possuído por si mesmo, o Otto cintilava em ditos espirituosos. Lá pelas tantas, farto de manusear tanto papel – concorriam mais de 13 mil trabalhos, de quase 9 mil autores –, aquele especialíssimo contista mineiro provocou gargalhadas ao sugerir aos camaradas que simplesmente desistissem da premiação, e que em vez disso fretassem um teco-teco para despejar sobre Belo Horizonte, qual bombas literárias, aquela “contarada”.

Justiça seja feita a meus coestaduanos: entre os concorrentes, os mineiros estavam longe de formar o contingente mais numeroso, bem atrás dos paulistas e dos cariocas, e com os gaúchos nos seus calcanhares. 

Anunciados os 10 vencedores, soube-se que três eram de Minas. Nem no topo do pódio, nem no rés do chão, custei a reconhecer, por detrás de um transitório sobrenome de marido, uma antiga e duradoura paixão de juventude. Dessas coisas que você só vai descobrir quando esteja extinto o fogaréu amoroso: no remoto portão belo-horizontino em que arderam nossos hormônios adolescentes, sob os eflúvios da Serra do Curral e a vigilância perdigueira dos pais da moça, o que havia não era um inspirado criador & sua musa, como eu pretensiosamente acreditava, mas um par de contistas mineiros. Nenhum dos dois, aliás, iria nesse ramo além de uma primeira e esquecível dentição.

P.S. Quem levou o 1.º prêmio? O amazonense Ruy Carlos Lisboa, com Donzela do Parque Imbituba. Cem mil cruzeiros – 4 vezes o que ganhava então o invejoso repórter da Veja ali presente.

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