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Luis Fernando Verissimo
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Inconsequência heroica

A impotência das Nações Unidas diante da tragédia dos refugiados no Mediterrâneo é igual à sua incapacidade de resolver a crise permanente do Oriente Médio e evitar as guerras que pipocam pelo mundo. A ONU é, ao mesmo tempo, um monumento aos melhores sentimentos humanos e uma prova de que os bons sentimentos não bastam, portanto um monumento à inconsequência. O fracasso da ONU na sua missão mais importante torna as suas outras utilidades supérfluas. Pouca gente sabe tudo que ela faz nos campos da saúde, da agricultura, dos direitos humanos, etc., como pouca gente sabia que a Liga das Nações, sua precursora (1918-1946, ou de um pós-guerra a outro), também promovia cooperação técnica entre nações e programas sociais, além de tentar, inutilmente, manter a paz. A diferença da ONU e da Liga das Nações é que uma sobrevive às frustrações que liquidaram com a outra e tem a adesão dos Estados Unidos. Apesar do presidente americano durante a Primeira Guerra Mundial, Woodrow Wilson, ser um entusiasta da Liga que, segundo ele, acabaria com todas as guerras, o Congresso americano rejeitou a participação dos Estados Unidos na organização, o que matou Wilson de desgosto. O Congresso aprovou a entrada do país na ONU depois da Segunda Guerra, mas a antipatia continuou. O desdém dos Estados Unidos e das outras grandes potências pela ONU ou por qualquer entidade supranacional é uma constante, e a invasão do Iraque foi uma prova recente desta desfeita.E, no entanto, a ONU já dura mais do que o dobro do que durou a Liga das Nações. Ela também é um monumento à perseverança sem nada que justifique.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2015 | 02h00

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Talvez se deva adotar a ONU como símbolo justamente dessa insensata insistência, dessa inconsequência heroica. Com todas as suas contradições e frustrações, ela representa a teimosia da razão em existir num mundo que teima em desmoralizá-la. Pode persistir como uma cidadela do Bem, na falta de palavra menos vaporosa, nem que seja só pra gente fingir que acredita nele, e nela, e em nós. Porque a alternativa é a desistência, é aceitar que, incapaz de vencer o desprezo e a prepotência dos que a desacreditam, a ideia de uma comunidade mundial esteja começando a sua segunda agonia. A Liga das Nações agonizou durante quase 30 sangrentos anos até morrer de irrelevância. A ONU só terá levado mais tempo para se convencer da sua própria impossibilidade.

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