Alaor Filho/AE
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Incompatibilidade de renda

Compositor de obras-primas com João Bosco e Guinga, Aldir Blanc depende de empréstimos e adiantamentos

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2011 | 00h00

Infelizmente, Aldir Blanc não é o único a receber imenso reconhecimento por parte do público e do meio musical e não ser devidamente remunerado por suas criações. No passado, nomes como Nelson Cavaquinho e os portelenses Argemiro do Pandeiro e Jair do Cavaquinho morreram com os bolsos vazios. A bola da vez escolhida pelo descaso é Hélio Delmiro. Para se ter uma ideia, o compositor, guitarrista e violonista referencial está internado no Rio com problemas cardiovasculares e, sem condições de pagar seu próprio tratamento, ganhou dos amigos e conhecidos destaque no blog www.solitarioousolidario.wordpress.com para captar doações para Delmiro.

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"O direito autoral é uma gangorra, né? Eu sempre me pergunto como estarão nomes como Casquinha, Zé Luiz do Império e tantos outros que deveriam ser tratados como patrimônios nacionais, mas não são. O caso do Helinho é ainda pior, porque acho que nem plano de saúde ele tem, se bem que eu costumo chamar esses planos de planos de doença. Às vezes, você tem até de entrar na Justiça, mesmo que sem sucesso", comenta Aldir.

Sobre ações judiciais, o compositor já teve de mover algumas. As próprias experiências revelaram que ter ganho de causa nem sempre significa receber a indenização. Há alguns anos, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) usou em uma campanha política Querelas do Brasil, de Aldir e Maurício Tapajós. "Eles usaram a música indevidamente, sequer nos consultaram. Abrimos um processo, ganhamos em última instância e teríamos de receber R$ 80 mil. Meu advogado, Eduardo Goldenberg, entrou em contato com Roberto Jefferson. Ele disse que não tinha o dinheiro e que não pagaria. Teriam de se desfazer dos bens, mas isso não acontece. A Justiça não funciona no Brasil", diz Aldir.

A luta do compositor pela justa remuneração da classe de seus pares e outros artistas não é de hoje. No passado, ao lado de outros nomes importantes, Aldir foi um dos fundadores de diversas entidades de controle e discussão sobre os direitos autorais. Entre elas, a Sombras (sociedade responsável pela arrecadação de direitos autorais), a Saci (Sociedade de Artistas e Compositores Independentes) e a Amar (Associação dos Músicos, Arranjadores e Regentes).

Na primeira metade dos anos 1970, O Mestre-Sala dos Mares, gravada por João Bosco, Kid Cavaquinho, por Maria Alcina, Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, por Elis Regina, e De Frente Pro Crime, pelo MPB-4, todas em parceria com João Bosco, estavam entre as 12 músicas mais tocadas no Brasil. Até hoje Aldir não recebeu o dinheiro dos direitos relativos àquele período. "A Sombras me custou caro. Na época, eu fui sumariamente excluído pela Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais. Como venceu o decurso de prazo, eu nunca vi aquele dinheiro, nunca recebi por aquele período", reclama o letrista sobre as associações.

Trajetória estelar

Foi justamente nos anos 1970 que Aldir despontou para o País como um dos maiores letristas de todos os tempos. Ainda no começo da década, em parceria com Sílvio da Silva Júnior, classificou alguns temas em festivais, além de compor Amigo É Pra Essas Coisas, pulsante até hoje. Logo depois, conheceria João Bosco, com quem formaria aquela que é considerada por muitos como a tabelinha mais perfeita da música brasileira. Ao lado do violonista, cantor e compositor mineiro, foram sucessos como O Bêbado e a Equilibrista, Agnus Sei, Bala com Bala, O Mestre-Sala dos Mares, Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, Caça À Raposa, Kid Cavaquinho, O Ronco da Cuíca e Incompatibilidade de Gênios, entre outros.

Grande parte do repertório foi eternizada na voz de Elis, ganhando também belos registros de João Bosco. No meio da caminho, Aldir ainda emplacou temas nas vozes de Elizeth Cardoso, Djavan, Clementina de Jesus, Fafá de Belém, Simone, Ângela Maria, MPB-4 e Clara Nunes. Ao longo da carreira, mais gente renomada gravaria Aldir, como Nana Caymmi, Walter Alfaiate, Paulinho da Viola, Edu Lobo e tantos outros.

Na década de 1980, destaque para os discos autorais com Maurício Tapajós e Moacyr Luz. Em 1988, ele conhece Guinga, que se tornaria um de seus parceiros mais constantes, tendo temas gravados nos discos do amigo também vascaíno, entre 1991 e 2009, como Simples e Absurdo, Delírio Carioca, Cheio de Dedos, Suíte Leopoldina, Cine Baronesa, Noturno Copacabana, Casa de Villa e Saudade do Cordão.

"Hoje eu recebo 70%, 80% menos do que recebia há dez anos. Eu não culpo o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição). A culpa é da pirataria e da internet, que causaram esse desmoronamento dos direitos para os autores. A CPI do Ecad pode até acontecer no sentido de modernizar a instituição, mas ela já começou mal intencionada. Outro dia, um senador do PSOL, cujo nome me foge agora, disse que havia conversado comigo e apresentou minhas ideias lá. Eu nunca vi esse sujeito na minha vida, é um absurdo."

Atualmente com seu tema e de João Bosco, Bijuterias, na abertura de O Astro, na Rede Globo, o compositor também faz críticas à distribuição que recebe dos direitos sobre composições suas em novelas da emissora exibidas no exterior. "Tenho mais de 30 músicas em novelas e dez aberturas. Muitas viajam pelo mundo e eu não recebo. Só coisas cômicas, como os R$ 2,30 da novela exibida em Israel", reclama.

Desenganos à parte, Aldir chega aos 65 anos enredado por familiares, amigos e parceiros conquistados em mais de quatro décadas de carreira, com especial devoção a Elis (1945-1982). Tem saudade da infância no Estácio, lembra com carinho das passagens por Vila Isabel, Largo da 2ª-Feira, e enche a boca para falar da escola do coração, o Salgueiro, e da neta Cecília. É um contador de histórias nato. Seja em verso ou em prosa, Aldir Blanc segue como um dos mestres da palavra no País. "Eu não dirijo, minha mulher tem um Corsa, dos mais baratos, encostado na garagem. Tenho quatro filhos fazendo especializações e cinco netos. Preciso ajudá-los, e frequentemente tenho de fazer empréstimos", completa o letrista.

ANTOLOGIA

Com João Bosco

O Bêbado e a Equilibrista

O Mestre-Sala dos Mares

Incompatibilidade de Gênios

Bala Com Bala

Caça à Raposa

Agnus Sei

Kid Cavaquinho

De Frente Pro Crime

Falso Brilhante

Ronco da Cuíca

Transversal do Tempo

Linha de Passe

Com Guinga

Catavento e Girassol

Sete Estrelas

Canibaile

Choro pro Zé

Baião de Lacan

Chá de Panela

Mingus Samba

Yes, Zé Manés

Orassamba

Abluesado

Tudo Fora de Lugar

DEPOIMENTOS

João Bosco

Compositor, violonista e cantor

"É muito difícil falar assim do Aldir, já que a gente é muito próximo. Fica difícil fazer uma análise com distanciamento da nossa parceria. Só posso resumir dizendo que ele é um grande amigo desses anos. Aldir é um parceiro de todas as horas, de todos os momentos. Sem contar que é um contador de histórias único, fantástico. Ele é mesmo um mestre da palavra."

Paulo César Pinheiro

Letrista, poeta e escritor

"Aldir é meu amigo desde os tempos da adolescência. Nós temos uma relação de irmãos. Tanto que em aniversários anteriores dele eu o presenteei com dois poemas, um deles é Irmão de Sangue. Se não consegui resumir em dois poemas o que eu sinto por ele, não será aqui. O que posso dizer é que todo mundo conhece esse lado de cronista, de gozador, que ele é craque, mas tem um lado dele que pouca gente conhece, que ele não demonstra muito, não sei o motivo, mas é quando ele se mete a escrever com lirismo, mostrando o lado sentimental, derramado. Nesse tipo de escrita ele é imbatível."

Edu Lobo

Compositor, cantor e violonista

"É um grande letrista e eu poderia falar de muitas letras fantásticas que ele costuma fazer. Para simplificar, vou me ater a Bala Com Bala, parceria com outro craque, João Bosco, que tive a alegria e o prazer de gravar: é uma obra-prima e, já que o Aldir gosta de futebol, um "gol de placa"."

Leila Pinheiro

Intérprete

"A importância do Aldir é incontestável. Ele é um dos pilares da poesia moderna, é uma escola para as grandes e novas gerações de poetas. O Aldir tem um estilo inconfundível, próprio. Você lê uma frase e já sabe que é dele, é raro, com uma importância vasta com todos os parceiros com quem ele gravou. Para mim, a parceria mais particular, mais diferente é a dele com o Guinga. Eu tive uma experiência muito alucinante de ter gravado o Catavento e Girassol, em 1996. Em muitos casos, a gente trabalhava nos arranjos sem ter ainda a letra do Aldir. Depois ele mandava a letra por fax. Às vezes, a gente mudava uma palavrinha ou outra, quase nada. Eu já sabia que iria me deparar com um universo muito ousado com aquelas composições de Guinga e Aldir."

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