Incógnito, mas célebre

Big band inglesa é atração do Bourbon Paraty Festival, no dia 24, e vem com sede de palco

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2013 | 02h07

Havia 17 anos que o pioneiro grupo de acid jazz Incognito não tocava no Brasil. A última vez que esteve por aqui foi em 1996, no antigo Free Jazz Festival. Agora, a bordo de seu 15º disco de estúdio, Surreal, a trupe volta ao País como atração do Bourbon Festival Paraty, em Paraty, que chega este ano à sua 5ª edição, entre 24 e 26 de maio (em shows ao ar-livre, gratuitos, no centro da cidade histórica).

A big band britânica cheia de divas faz dançar com uma mistura infatigável de jazz, soul e funk. "A primeira jornada ao Brasil é algo de que me lembrarei para sempre. E como eu poderia esquecer? Herbie Hancock, que é um grande amigo meu, estava tocando naquele festival, foi demais. Mas eu espero ainda mais dessa nova visita", disse, em entrevista ao Estado, por telefone, Jean-Paul Maunick, o Bluey, natural das Ilhas Maurício, o ideólogo e líder do grupo.

"Aquele festival era muito grande, agora eu quero tocar mais tempo, divertir mais a plateia", avisou ele, anunciando que vai ser difícil tirá-lo do palco. Ele disse que vem com praticamente a mesma banda que tocou no disco, com as cantoras Vanessa Haynes e Nathalie Williams e Tony Momrelle. "Tony não gravou o disco Surreal porque estava em turnê com Sade."

Bluey, você está há mais de três décadas na estrada agora.

34 anos, para ser exato.

O que mudou na black music desde que você começou,

em sua opinião?

Para mim, a música que eu abracei, que tenho feito, é aquela música que era feita lá nos anos 1970. Mas viver tocando só música dos anos 1970 seria permanecer num mundo de fantasia, um mundo retrô. É o mundo de onde eu vim, é parte da minha realidade, mas eu também vivi os anos 1980 e os anos 1990 e nossa era de agora. Minha música reflete esse choque das coisas mudando ao meu redor. Às vezes não é nem mesmo um choque da música em si, mas o efeito que isso causa em minhas composições e como abordo minha produção. É sempre um sabor muito natural dos "seventies", e isso está presente nos metais, nos vocais, nas linhas do contrabaixo. Quando estamos em movimento, viajando, não estamos compondo música do passado, que muitas vezes é chata. Vamos escrevendo novas canções que reflitam as mudanças à nossa volta. Não quer dizer que eu vá mudar o estilo musical e sair adotando os rótulos que vão surgindo. "Ah, agora eu ouvi D'Angelo, e quero fazer algo como esse neosoul". Isso não é importante. O que me importa é compor algo que me pareça tão forte quanto aquilo que eu ouvia no passado. Quero fazer discos que façam garotos, caras, meninas, mulheres, homens de negócios ouvirem e dizerem: isso é importante para mim, eu quero fazer algo assim um dia, quero fazer disso o meu trabalho. Que foi o que aconteceu comigo quando ouvi Superstition, de Stevie Wonder, ou What's Going On, de Marvin Gaye. Quero que quando alguém pegar um disco meu, que diga: "Amo o som disso, adoro essa história. Sou parte disso, é parte da minha vida. Quero celebrar isso!". Trata-se de estabelecer conexões.

Houve um vácuo na black music nos anos 1980 e uma ressurreição nos anos 1990. E agora tivemos uma epidemia de astros que parecem voltar àquela época áurea, começando por Amy Winehouse. Como você avalia isso?

O que aconteceu nos anos 1980 é que as companhias de discos puseram mais ênfase na produção do que no artista. Houve um barroquismo, elementos demais, significado de menos. "Nós queremos que isso soe como fulano, como sicrano!". E todo mundo usava a mesma machine drum, o mesmo beat, os mesmos samples. Ficou tudo muito estufado. Apenas algumas bandas, como Soul2Soul, buscavam misturar as novas tecnologias com as velhas técnicas de composição. Nos anos 1970, acontecia de a gente ter muitas cantoras de soul aqui na Inglaterra que não vinham da escola tradicional, que eram as igrejas protestantes, mas sim do mundo da música clássica. Quando as crianças começaram a resgatar os discos que seus pais ouviam aquela época, piraram. Amy Winehouse é um exemplo perfeito. Ela era muito amiga minha, e posso garantir isso pra você: Amy conhecia mais sobre discos do que a maioria dos DJs. Era uma enciclopédia musical. Tem gente que acha que ela caiu de paraquedas no mundo da música. Ela conhecia a coisa profundamente. Sabia tudo sobre Billie Holiday. Havia, é claro, um talento natural. Ele foi afortunada o suficiente para conectar um passado quase esquecido com seu dom especial. Os anos 1980 foram voltados para a produção e os anos 1990 foram de uma espécie de ressaca disso. Daí veio o acid jazz, que envolveu também DJs. Não eram mais só músicos. Eles chegaram remixando, produzindo, e as pessoas que não sabiam produzir passaram a produzir porque tinham estúdios em seus quartos. E aí veio uma nova atitude, porque a mentalidade do hip-hop passou a garimpar de novo os velhos discos.

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