Incertezas do mar, dos sonhos e da paixão

Encenação de Robert Wilson estiliza em excesso obra misteriosa de Ibsen

JEFFERSON DEL RIOS - ESPECIAL PARA O ESTADO,

06 de junho de 2013 | 02h08

A Dama do Mar tem início com o estrondo de ondas e gritos de gaivotas. Esse gélido e ameaçador mar europeu não existe no Hemisfério Sul, salvo exceções ou épocas do ano. Idem as gaivotas que aparecem menos em águas tropicais. Se Robert Wilson tivesse observado a costa brasileira teria notado. A trilha sonora é, porém, parte de algo que de fato ele criou fruto do seu talento, mas que não é novo.

Anunciou-se que o encenador já fez a mesma peça na Itália, Coreia, Polônia e Espanha. O que veio a nós é, salvo engano, a repetição do que existe sob a supervisão de um assistente. Wilson apenas escolhe quem entra na moldura artística pré-existente. Apesar de ele dar retoques no que existe e de o original ter sido resumido por Susan Sontag, ensaísta famosa, o espetáculo somente é interessante na segunda metade porque os intérpretes são bons e o norueguês Ibsen (1828-1906) se impõe finalmente à linguagem de Wilson. É sabido que vários artistas trabalham com assistentes, assim como outros refinam sozinhos suas descobertas, como o nosso João Gilberto, mas o palco é o território do artesão presente. Se ele se transforma em celebridade com múltiplos compromissos, a vantagem pessoal frequentemente afeta perigosamente sua arte. O magnífico pianista canadense Glenn Gold abandonou cachês enormes dos recitais para se recolher ao estúdio e só gravar discos quando poderia conciliar seu gênio com plateias internacionais. Não quis.

Escrito em 1888, A Dama do Mar aborda os anseios da bela Élida, casada por inércia com um médico sem grande encanto pessoal. Aceitou a situação por orfandade e desamparo, mas continua apegada à paixão pelo marinheiro enigmático, verdadeiro símbolo dos espaços abertos e da liberdade. Uma mulher na província sem horizonte dividida entre a segurança material e social burguesa (estamos no século 19) e a aventura. Precisa decidir-se.

Ibsen está interessado no livre-arbítrio, o que se nota no conjunto de sua literatura. O que diferencia e confere outra beleza ao drama A Dama do Mar, como antes à saga Peer Gynt (um dos triunfos na carreira de Antunes Filho) é a presença do imaginário nórdico com mitos que se perdem no tempo. No caso, a crença em pessoas que se transformam em focas (em plena Amazônia, mistério ressurge na forma de boto). A obra representa uma guinada no realismo estrito e prolixo de Ibsen em direção ao simbolismo de pinceladas subjetivas.

Bob Wilson não gosta de Henrik Ibsen e deixou claro em entrevista. Gosta de Bob Wilson refazendo Ibsen. Rigoroso e criativo na forma, dono de poderosa imaginação visual, constrói universos plásticos geralmente envolventes, mas pode incorrer em invenções não convincentes. A mais flagrante agora é a diluição de outras estéticas, como, por exemplo, a japonesa (visível na maquiagem- máscaras faciais e sons de madeira), que pouquíssimo acrescentam à trama e escondem a beleza e a expressividade teatral das ótimas atrizes que representam Élida (Lígia Cortez e Ondina Clais Castilho em revezamento).

Os deslocamentos lentos dos personagens, originais décadas atrás, resvalam aqui para o maneirismo. Idem a sobrecarga de cenas escuras que esfriam o enredo. O sentido de humor, que também existe em Wilson, incorpora a comédia do tipo Mack Sennet e da revista Mad só que, neste caso, o recurso é usado no começo e, sobretudo, nos personagens masculinos com tiques amaneirados para destituí-los de qualquer verossimilhança enquanto homens de família, sedutores, etc. Supostamente, é uma ironia ao autor e os excelentes Luiz Damasceno e Hélio Cícero sabem fazer as caretas de Alfred Neuman, de Mad, mas é Ibsen quem causa impacto mesmo que talvez arcaico em conceitos ou no estilo. Bete Coelho consegue tirar proveito do exagero cômico ao lhe dar um traço entre o robô e a loucura. Por fim, em um clima sem poesia, o marinheiro dos sonhos da mulher (Felipe Sacon) reaparece como uma presença musculosa que faz lembrar índio norte-americano de cinema.

Bob Wilson está entre os renovadores da cena contemporânea e os artistas nacionais demonstram satisfação com o aprendizado na breve convivência com o mestre da abstração no palco. Merece louvor e atenção sem adesões incondicionais. O mar é incerto.

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