Incertezas

Única certeza que tive foi, apesar da máscara, a de voltar a sorrir e cumprimentar as pessoas

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2020 | 03h00

O que mais detesto nesta pandemia é ser olhado como uma ameaça. Pensam: O que será que ele tem? Será que passa o que ele tem?

Existem pessoas tão capacitadas para o altruísmo que, mesmo sem qualquer vaidade ou interesse, experimentam uma grande satisfação com o contentamento do outro, e fazemos o bem não por inclinação, mas por dever, disse Kant. Que foi direto ao assunto: conservar a própria vida é um dever e algo para o qual todos possuem uma inclinação instintiva.

Nas primeiras semanas de isolamento social, paramos de sorrir. Ao cruzar com vizinhos íntimos, nem acenos. Eles desviam. Posso ser a morte. Meus filhos podem ser a morte. Eles se acostumaram. Veem seus amiguinhos do prédio e não chegam perto. Se o amiguinho chega, os pais logo o puxam.

Parece que todos somos terroristas prestes a explodir. Em supermercado, afastam-se. Grades e cordões de isolamento delimitam nossa passagem. Não podemos encostar em nada. E, se encostamos, imaginamos a morte rondando. Não nos sentimos mais bem-vindos. Nem nosso dinheiro é aceito sem antes uma higienização, seguindo o protocolo de segurança.

Distraído, por duas vezes saí sem máscara. Enfiei a camisa na cara e tremi, como num pelotão de fuzilamento. Sou temido e temo. No carro, com as janelas abertas, um pobre coitado veio pedir dinheiro para comer. Aproximou-se demais da janela. Não usava máscara. Apoiou-se no retrovisor. Ele não queria matar. Só queria não morrer de fome.

O altruísmo de Kant, o princípio supremo da moralidade, foi-se de vez. Nos tornamos nova-iorquinos no inverno, que não se olham, não se cumprimentam, andam de cara amarrada, não te abrem portas, não te carregam coisas, não ajudam, não querem olhar cruzado, e se você se aproximar muito, já escutava antes da pandemia: “Stay back!”.

Até na barraca de pastel da feira livre tem fila com distanciamento. E o dinheiro deve ser colocado numa cestinha. Padocas, literalmente às moscas. Em farmácias não se pode aproximar de farmacêuticos. 

Estádios de futebol, concertos, festivais de rock e de cinema, Meca e Praça de São Pedro, carnaval, balcão apinhado do boteco, manifestações de protesto ou apoio, paradas gays, marchas com Jesus, procissões, maracatu, trio elétrico, tudo à espera de uma vacina, que pode durar um, dois anos, como pode não vir, como não veio a da aids, que tanto esperamos, e com a qual fizemos planos, malária, dengue, ebola, Sars, zika, chikungunya e outros vírus de doenças infectocontagiosas.

Viajar de avião? Alguma companhia aérea vai sobreviver a tamanha crise do setor? A Royal Caribbean Cruises pede uma grana emprestada e oferece alguns dos seus 28 navios como garantia, que valem ao todo US$ 29 bilhões, incluindo o Synthony of the Seas, que faz o Titanic parecer um rebocador. Valiam. Se viajar de navio era uma roleta-russa, como se servir de maionese num buffet, imagine agora.

Aliás, e os buffets? E Las Vegas sem os buffets? E os cassinos sem buffet barato, uma orgia de cores, sabores e desperdício? 

Comida, por sinal, passou a ser tratada como veneno. A única pizza que pedi, nesses tempos de quarentena, me deu tanto trabalho, que nunca mais pedi. Embrulhei-a numa toalha, separei como um cirurgião cada pedaço da caixa de papelão, imaginei pizzaiolo, entregador, maquininha, tudo contaminado. Que estresse... Por uma massa com queijo, tomate, azeitona e manjericão.

Alguns perderam parentes, emprego, empresa, todos nós empobrecemos. Alguns lutam pela vida num hospital de campanha. Outros, em casa, lutam para respirar. 

Aqueles que já tiveram contato com amigos, vizinhos ou parentes contaminados, ganham uma lista de afazeres. Quarentena? Existem os exames de sangue IgA e IgG, para detectar anticorpos ao Sars-CoV-2, o popular novo corona, ou seja, as pessoas que já foram expostas, feitos por laboratórios que, claro, os planos não cobrem. 550 pratas, num bom laboratório. Interpretá-los é um enigma. E tem falso negativo.

Não tem exame para todos, mas sobra para o 1%. Então, parte-se para o IgM e o aterrorizador PCA para quem excreta o vírus, pois está com ele. É o do cotonete? É. Mas não é um cotonetezinho inocente. Tem um palmo. “Parece um estupro no cérebro”, me definiu um parente. Ficou dois dias com narina, globo ocular, ouvido e cérebro doendo. 450 pratas, no mesmo laboratório, sem reembolso.

Tem gente com IgA e IgG negativo e PCA positivo. Dedução: está contaminado recentemente e contaminando. Com IgA e IgG positivo e PCA negativo. Foi contaminado há mais de duas semanas e não estaria mais. Mas tudo pode estar errado. O membro de um casal tem IgA e IgG positivos e PCA negativo. O outro, tudo invertido. Sem sintomas e lógica. 

Ao menos, estão sem sintomas. Mas estão livres? Nada disso. O vírus sofre mutação, dizem. Na Coreia do Sul houve reinfecção. Depois, negaram. Segundo a RTBF (rede de televisão belga), pessoas assintomáticas não desenvolvem imunidade ou muito pouca imunidade, as pessoas com poucos sintomas ou bastante sintomas desenvolvem uma imunidade moderada, e quem teve uma infecção muito severa desenvolve uma forte imunidade.

E, se sou imune, posso conviver com outros, numa pequena bolha? Ando com um passaporte de imunidade, o exame laboratorial no bolso? Qual o tamanho ideal dessa pequena bolha? Cloroquina ajuda? Por que nosso presidente diz uma coisa, e seu ministro outra? O americano também.

Única certeza que tive foi, apesar da máscara, a de voltar a sorrir e cumprimentar as pessoas. Algumas continuaram emburradas. A maioria curtiu.

 

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