Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Incêndio do Memorial chama a atenção para outros teatros queimados ou abandonados

Muitos teatros já foram fechados depois de queimados, caso do Cultura Artística, em 2008

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

04 de dezembro de 2013 | 22h50

O incêndio que consumiu o Auditório Simon Bolívar, no Memorial da América Latina, não é exceção na história da cidade. Infelizmente, muitos outros são os teatros que fecharam as portas depois de queimados. Destruído pelo fogo em 2008, o Teatro Cultura Artística é exemplo eloquente do triste destino de várias salas de espetáculo da cidade. Rapidamente devoradas pelo fogo, mas quase nunca prontamente recuperadas.

No caso do Memorial, as autoridades falam em reabrir o prédio o mais rápido possível. Nem sempre, porém, é simples esse processo. Foi imediatamente após o incêndio do Cultura Artística que surgiram os planos de reconstrução. A despeito dos esforços da entidade, pouca coisa surgiu até hoje no lugar dos escombros. E a espera pelo início das obras continua. “Já conseguimos recuperar completamente a fachada e estamos finalizando o projeto executivo”, diz Frederico Lohmann, superintendente da Sociedade de Cultura Artística.

Outros teatros nem chegaram a pegar fogo, mas também estão degradados, esperando a reconstrução que tarda em chegar. Eis o destino do TBC – Teatro Brasileiro de Comédia. Parte essencial da história do teatro no País, o prédio teve sua reinauguração anunciada para outubro deste ano. Planos que foram mais uma vez adiados.

A novela se estende desde 1964, quando deixou as mãos de Franco Zampari. Em 1999, após uma reforma, o teatro histórico voltou a funcionar. Foi reinaugurado com comemorações, um investimento de R$ 4 milhões e a presença de destacados diretores na programação. Três anos depois, contudo, o espaço voltou a fechar as portas. Foi em 2008 que a Funarte adquiriu o edifício. Prometeu uma restauração que começaria no ano seguinte, mas que já passou pelas mãos de quatro presidentes da instituição – Celso Frateschi, Sergio Mamberti, Antônio Grassi e Guti Fraga – sem se tornar algo além de uma promessa.

Cultura Artística promete início de obras para 2014 e TBC adia entrega para junho

Após cinco anos de espera, a reconstrução do Teatro Cultura Artística está prestes a começar. Essa é a promessa de Frederico Lohmann, superintendente da entidade. “Estamos na última fase de aprovação da proposta junto à Prefeitura e finalizando o projeto executivo”, diz ele. “A intenção é ter tudo isso pronto no início do ano e começar as obras no primeiro semestre.”

Ocorrido no último dia 1º, o fechamento da filial do teatro, que funcionava no Itaim Bibi, sinaliza, segundo Lohmann, o primeiro passo dessa nova fase. “Fechar foi uma decisão estratégica”, considera. “Para concentrar recursos físicos e financeiros na construção.”

Se realmente for iniciado em 2014, o Cultura Artística levará cerca de três anos para ficar pronto. Com a conclusão em 2017, serão nove anos de intervalo entre o incêndio e a reinauguração. “Sempre gostaríamos que isso acontecesse em um prazo mais curto, mas esse é o tempo necessário para a maturação de um projeto dessa magnitude”, comenta o superintendente, fazendo menção a exemplos de reconstrução de teatros no exterior.

Na nova configuração, o teatro será três vezes maior que o original. Assinada por Paulo Bruna, a proposta arquitetônica prevê duas salas, uma com capacidade para 1.200 espectadores e outra para 200 pessoas. Também haverá acesso direto pela Praça Roosevelt e a promessa de que o edifício funcione como um centro cultural, aberto diariamente ao público.

Para concretizar esses planos, o valor estimado é de cerca de R$ 100 milhões, dos quais 30 milhões já foram arrecadados. São doações de mais de 400 pessoas físicas e jurídicas, a maioria delas viabilizada por meio da Lei Rouanet.

Mas, como conseguir o restante dos recursos se, em cinco anos, esse patamar não chega a 30% do necessário? A sociedade crê que, com as obras em andamento, um número maior de doadores estará disposto a ajudar. “Os R$ 30 milhões que temos são necessários para construir a infraestrutura básica”, assegura Lohmann. “E temos a sinalização de várias empresas.”

O restauro do antigo TBC – Teatro Brasileiro de Comédia está anunciado desde o final de 2008. Em 2009, o edifício que pertencia à empresária Magnólia Lago Ferreira foi adquirido pela Funarte, na gestão de Sérgio Mamberti.

Atualmente, os trabalhos de reconstrução já começaram. Mas quem passa diante do prédio não encontra máquinas ou operários. “Tivemos que interromper o restauro para resolver uma pendência com o Condephaat”, justifica o presidente da Funarte, Guti Fraga. De acordo com ele, a interrupção já dura cerca de 20 dias.

O órgão de preservação do patrimônio histórico estadual não teria concordado com uma alteração feita no telhado e com as cores propostas para a pintura da fachada. A expectativa da Funarte é retomar a reforma até o início de 2014. E entregar o prédio pronto, promete o presidente da instituição, em junho do próximo ano. “Tudo o que eu mais quero é entregar logo. É um símbolo de importância fundamental para o País.” Na década de 1940, o TBC marcou a modernização do teatro brasileiro, tendo reunido nomes como Cacilda Becker, Adolfo Celi e Paulo Autran.

No cargo há cerca de quatro meses, Guti Fraga comenta que ainda está se “familiarizando” com os assuntos da Funarte. Não sabe informar qual o valor a ser investido no edifício teatral nem a data de início das obras. “Ainda estou chegando”, diz ele.

Os planos iniciais anunciados para o novo TBC incluíam a seleção de espetáculos teatrais e a guarda de acervos. Fraga comenta que a proposta de uso do espaço ainda está em discussão. “O que não faltam são planos, ideias, delírios.”

Outras vítimas do fogo

Teatro São José

Na atual Praça João Mendes, foi aberto em 1864 e tinha capacidade para 1.200 espectadores. Foi incendiado em 1898.

Teatro Record

Fundado em 1959, na Rua da Consolação, foi sede dos festivais da MPB durante a década de 1960. Pegou fogo em 1967.

Teatro Paramount

Na avenida Brigadeiro Luís Antônio, é atualmente conhecido como Teatro Renault. Também recebia os festivais de música popular da Record nos anos 1960. Sofre um incêndio em 1969.

Salão Celso Garcia

Antiga sede da Associação das Classes Laboriosas, recebeu importantes espetáculos na década de 1920. Depois de anos de abandono, incendiou-se em 2008.

Teatro Oficina

A primeira sede do grupo de Zé Celso sofreu um incêndio em 1966. Na década de 1990, foi inaugurado o prédio atual.

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