Incendiário, mas também cauteloso

Cultivar a dúvida sistemática como método do exercício crítico foi o marco decisivo[br]de seu trabalho, ressaltou estudo publicado no caderno

Alberto Soares de Almeida, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

Em junho de 1953, em Paris, por iniciativa do Grupo de Pesquisas de Musica Concreta da Radio-Televisão Francesa, e sob a direção de Pierre Schaeffer, realizou-se a "Primeira Decada Internacional de Musica Experimental". A esse acontecimento "La Revue Musicale" dedicou um numero especial, aparecido em maio do corrente ano. A razão desse atraso de quatro anos na publicação da revista é explicada pelo seu diretor, Albert Richard, que confessa ter sido assaltado por duvidas e uma certa inquietação. Temia ele que seu lançamento no mundo internacional da musica desencadeasse um "desvio" de certos valores por parte dos jovens musicos, demasiadamente sedentos de novidade e de aventura mecanica. Pois o numero fazia "uma proposta das mais tentadoras a todos os jovens, um convite por demais insistente no sentido das musicas eletronicas", sugerindo uma especie de "poema da aventura, a oferta de um país estranho e de continentes novos abertos á curiosidade dos exploradores". Atualmente (...), a Revista considera o perigo superado, acreditando que os moços não mais correm o risco de perder-se nesse fabuloso país da Pesquisa. E assim veio á luz um documento interessantíssimo, apresentando exatamente a mesma materia e a mesma redação que deveriam ter sugerido quatro anos atrás. De maneira prudente, a Revista conservou a advertencia inicial aos leitores: "Ousamos esperar que todos os amigos da musica compreenderão a importancia extrema deste numero especial. Seu conteudo indica, no conjunto, uma das fases mais agudas da musica do seculo XX. Sem tomar posição quanto aos problemas que ele coloca, a Revista Musical se devia a si mesma um tal documento (...) Pensamos não exagerar ao dizer que ele encerra a mensagem mais perturbadora para a musica de hoje... Nossa neutralidade de opinião é total, mas não subestimamos de modo algum a importancia dos valores debatidos".

(...)

Pierre Schaeffer comparece com dois trabalhos: uma carta á Direção da Revista e um ensaio, "Vers Une Musique Experimentale", que aliás dá o título a todo o numero. Schaeffer me parece - pelo menos dentro da incerteza de impressões iniciais tão suscetiveis de revisão - a figura mais interessante do grupo. Dificilmente se encontrará um revolucionario mais cauteloso e desconfiado, mais prudente, honesto e humilde em suas proposições, alimentando sua fé sem dogmatismo e cultivando a "duvida sistematica" como metodo de exercício critico. E tendo ao mesmo tempo uma confiança ultima e secreta na validade de suas pesquisas. (...)

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