Incansável provocador completa 13 anos no ar

Antônio Abujamra diz que é constantemente incitado por seus entrevistados e que prefere anônimos a intelectuais

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2013 | 02h19

Uma sabatina à meia-luz, com direito a voz grave e misteriosa do apresentador somada à intimidadora lente de uma câmera parecem não assustar os convidados do Provocações. Sob o comando de Antônio Abujamra, o programa da TV Cultura completa 13 anos no ar neste mês e ele jura que, até hoje, nenhum dos 600 entrevistados desistiu de ir por temer suas perguntas.

"Não sei ao certo, mas tem tanta gente querendo ir que não ficamos preocupados. Se quiserem falar de seus males da alma, podem ser convidados de imediato. Podem vir nos provocar tendo a certeza de que os nossos males da alma são maiores", afirma o ator, diretor de teatro e apresentador de 81 anos.

Na terça passada, o programa relembrou a presença de entrevistados ilustres com depoimentos de Décio Pignatari (1927-2012), Carlos Reichenbach (1945-2012), Paulo Autran (1922-2007), o jogador Sócrates (1954-2011), e outros já mortos. Segundo Abujamra, a lista de personalidades mostradas foi uma ideia conjunta de sua equipe de produção.

"O critério da escolha não vem só da minha cabeça. É um grupo de trabalho que funciona já há 13 anos. Todos atuam com a complexa visão do mundo social e climas que atormentam suas cabeças e não têm pudor em escolher", explica, mantendo o jeito de divagar que costuma mostrar no programa.

A ausência de convidados ainda vivos nos depoimentos tem uma razão. "Porque o futuro é um futuro em que os falecidos podem continuar a possibilidade de ser uma nova modernidade. Ninguém pode ter certeza de nada e, se responderam com suas visões, merecem ser lembrados."

Até para enumerar quem gostaria de receber na atração, o apresentador brinca com a resposta. "Creio que ninguém ou todo o mundo, Obama, Bin Laden, Mandela", disse ao Estado em entrevista por e-mail.

Abujamra não cita nominalmente qual dos convidados já o provocou mais do que o contrário ao longo dos anos em que esteve à frente do programa, mas garante ser comum a situação em que os papéis se invertem diante das câmeras.

"Eu sou um constante provocado mais que um provocador, e os convidados sempre querem existir e elaboram, às vezes, uma exibição de sofisticadas vozes e contorções que transformam em tragédias autênticas e me deixam sofrer tristemente."

Apesar de já ter recebido intelectuais e artistas de relevância na cena cultural do País, Antônio Abujamra conta que as provocações que mais lhe chamaram a atenção foram as dos anônimo cujos depoimentos entram ao longo de cada edição.

"Os surpreendentes são sempre os que achamos na rua e puxamos pelos braços para mostrarem que existem. Não precisam ter medo de serem humanos e mostrar a sua cabeça com sua inteligência. A rua é a grande chave do Provocações. Eles ficam ferventes nas respostas e demonstram uma maneira interessante que os esnobes não conseguem nunca. Um padeiro é capaz de mostrar uma visão crítica do País com mais beleza que muitos intelectuais."

Abujamra avisa que não pretende passar o bastão do programa. "Porque leio Baudelaire, Kafka, Joyce, Proust, Nietzsche e quase sinto a necessidade de reler os clássicos russos que foram toda a escola da minha geração de diretores teatrais. Eles nos levam a acreditar sempre na maravilha de um renascimento para nos suplantarmos com tenebrosos momentos, em que o intrínseco valor da arte nos tira da confusão da vanguarda. Graças a Deus."

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