Inacabado já é o completo em Muta

"Talvez meus cadernos lancem algum iniciante no caos", afirma quadrinista

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2012 | 02h10

Lourenço Mutarelli é talvez um dos cronistas de São Paulo mais prolíficos e incansáveis. Um de seus hobbies é povoar a cidade desenhada pela qual perambula com as figuras de sua convivência (como Glauco Mattoso, Mário Bortolotto, Paulo de Tharso) e com outros de sua formação cultural (William Burroughs, Johnny Weissmuller, Woody Allen).

A ação literária, ou gráfica, vai se formando no interior dos seus cadernos de esboços, com esses personagens reais transmutados em figuras de ficções incompletas, quase oníricas. Por vezes, o resultado lembra uma versão punk de Lucian Freud, um Bosch acorrentado ao Almanaque Renascim. "Muta", como alguns amigos mais chegados o chamam, começou a usar cadernos moleskine em 2006 ou 2007, segundo conta, após ser "apresentado" ao modelo por Paulo Machline. Lembrava-se da dificuldade em encontrar cadernos sem pauta na infância, e os adotou.

"Na verdade, não penso nem vejo meus atuais cadernos como sketchbooks. Eles têm mais a ver com os cadernos da minha infância que, infelizmente, foram varridos para longe. Minha mãe os jogava fora nas faxinas de fim de ano para liberar espaço para o material escolar do ano seguinte", escreve Mutarelli, em texto no livro de abertura da caixa.

Os editores analisaram cerca de 30 desses cadernos moleskine produzidos por Mutarelli para chegar aos cinco que consideram "mais significativos" e que compõem a caixa Mutarelli - Sketchbooks. A editora POP se define como "independente, resultado natural e desdobramento da experiência com a livraria e galeria POP, que funcionou de 2006 a 2010 sob o conceito 'alimento para mentes criativas'".

"Nosso interesse primário é o processo criativo, o pensar e os bastidores das linguagens criativas", diz o seu slogan. Bom, se procuravam por uma mente convulsiva, Mutarelli é o cara. A Companhia das Letras, que publica romances e quadrinhos de Mutarelli, chegou a examinar o projeto tentando entrar na disputa para editá-lo, mais desistiu. "Na verdade, desde o início o projeto era da POP. É que meu editor da companhia ficou sabendo e apresentou o projeto lá, mas eu já tinha fechado com a POP e, no final, a Companhia achou mesmo que não tinha o perfil deles", explica o autor.

Lourenço Mutarelli responde ao seu estilo à pergunta "o sketchbook pode ajudar algum artista iniciante em busca de um método, de um sistema de organização das ideias?" - e que não é um estilo de dourar a pílula. "Talvez meus cadernos lancem esse iniciante no caos, e acho que isso pode ser um bom começo. O ideal é a experimentação como processo", afirma.

Mutarelli diz que, para além de um tipo de atividade artística investigativa, os cadernos geralmente são um fim em si mesmos. "A priori, são o que são. Um fim em si mesmos. Mas, muitas vezes, encontro coisas neles que acabam se desdobrando em outros projetos", conta.

Para compor suas investigações visuais, Mutarelli recorre a todo tipo de artifício. Qualquer elemento pode se tornar fonte de inspiração, seja um bonequinho de chumbo ou uma advertência de cigarros. Arnaldo Antunes, em ensaio no encarte do primeiro livro, enumera o que encontrou: "Carta de baralho ou de tarô, maço de cigarro, rótulo de garrafa de bourbon, post-it, código de barra, manual de instruções, foto de revista, bilhete de passagem de ônibus, carimbo, lista de compras, anotação de um telefone de contato ou de um compromisso agendado -, interferências do mundo absorvidas pela massa informe de desenhos e falas".

O artista plástico Guto Lacaz disse, sobre o artista: "Lourenço linha Lúcifer fuma canetas, incendeia cadernos e comete todos os crimes. Santo homem".

Uma das primeiras experiências de Mutarelli forjadas a partir de seus cadernos de esboços foi a tira Ensaio Sobre a Bobeira, publicada com exclusividade pelo Estado em 2010. O autor disse, na época, que vivia uma experiência inteiramente nova fazendo uma tira regular em uma publicação, porque no passado tentara desenhar em jornal e não tinha conseguido - não conseguia desenvolver uma rotina por causa da própria natureza "estranha" de sua obra.

Mas o trabalho acabou sendo publicado com grande repercussão, e Mutarelli voltou aos quadrinhos - que tinha largado pela literatura. "O que me incomoda às vezes nas tiras, e hoje até que está mudando isso, é que havia um monopólio de alguns, e não se abre espaço para o pessoal novo. E acho que tem de haver um lugar onde os novos possam mostrar seu trabalho. Tem de vir a molecada, esse pessoal tem de vir. Quando comecei, era difícil e havia um monte de revistas em bancas. Hoje em dia não tem revista em banca, e se não houver espaço não tem como desenvolver."

Ele também falou sobre o processo de criação a partir dos cadernos, explicando que, a começar do desenho, criava algum diálogo, algum texto, "que é um processo inverso de você fazer um roteiro de quadrinhos", no qual se cria uma imagem e daí é que se vai ver o que aquela imagem quer dizer e a complementa.

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