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(In) Feliz Natal

Para falar a verdade, nunca fui muito fã da data. Não escrevia cartinhas para o Papai Noel

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 02h00

Desde criança, ouço minha mãe dizer, ao tentar justificar o fato de não querer comemorar seu aniversário, que não gostava de alegria com data marcada. Nunca entendi bem o que ela queria dizer com essa expressão. Hoje, aos quase 30 anos, na semana do Natal de 2017, entendi.

Para falar a verdade, eu nunca fui muito fã do Natal. Não escrevia cartinhas para o Papai Noel, nem tive qualquer trauma ao descobrir que aquele senhor, na realidade, não existia. Meu grande, violento e irrecuperável trauma de infância foi descobrir que a Vovó Mafalda era homem. Isso sim foi um golpe duro. Já o Papai Noel nunca me foi uma figura tão cara.

Cresci com um certo sentimento de culpa por não esperar o Natal com uma alegria estonteante. Pelo senso comum, não há grande problema no fato de não se amar o carnaval. Nem é absurdo não ligar para a Páscoa ou para o Dia das Bruxas. Mas não ligar para o Natal sempre soou como um verdadeiro sacrilégio, como se fosse sinônimo de não gostar da família ou de não valorizar a figura de Jesus Cristo.

O Natal da minha infância era atípico. Uma grande festa com pais, irmãos, tios e primos no começo de dezembro. Essa festa eu adorava – e adoro até hoje. Mas na noite do dia 24 e no almoço de 25, meus irmãos iam embora para estar com o pai deles. Sobrávamos eu, meu pai e minha mãe. Meu pai perdeu a mãe aos 23 anos, às vésperas do Natal, e, obviamente, nunca mais olhou para a data com grande alegria. Era uma noite estranha. O Natal não era uma data esperada por mim. Pelo contrário, queria que ele passasse logo para que meus irmãos voltassem para casa. Anos depois, o Natal segue me parecendo um dia incômodo.

Tenho certeza de que não sou a única para quem o Natal é uma data confusa. A maioria das pessoas, nessa data, lida com culpas, angústias e ausências. A partilha das crianças por conta das separações, a falta daqueles que já morreram, os avós que lidam com a ausência dos netos, os adultos que aprendem a estar com os sogros em vez de estar com os pais, os pais que aprendem a abrir mão dos filhos que já cresceram. O Natal é bonito, mas é dolorido também.

Soma-se a isso essa doentia dinâmica dos presentes que se instalou nas nossas vidas. Tenho certeza absoluta de que Jesus, em algum lugar, fica mesmo muito chateado por ver seu aniversário transformado em uma data de consumo extremo, de crianças que abrem dezenas de pacotes sem valorizar quase nenhum, de adultos que se flagram angustiados com quanto dinheiro vão ter que desembolsar para satisfazer os requisitos mínimos que o comércio conseguiu nos impor.

É claro que é bom estar com a família reunida, comendo coisas gostosas. Ninguém tem dúvidas disso. O problema é ter que lidar com essa estranha logística natalina, cheia de compromissos, divisões, compras, pacotes e frustrações. No fim, percebo que, assim como eu, tem muita gente que só quer que janeiro chegue logo para que isso esteja resolvido o quanto antes.

Compreendo muito bem agora o que minha mãe dizia sobre não gostar de alegria com data marcada. Meu amor e minha dedicação pelas pessoas não se confunde com o Natal. Meu amor é sereno e minha dedicação é constante. Vejo muito mais amor no fato de eu estar trabalhando com alguma pressa para poder buscar logo minha enteada para passearmos de ônibus pela cidade do que no presente que comprei pra ela de Natal. Vejo mais amor pelos pais quando preparo o café da manhã, quando eles chegam a Lisboa, do que quando marco com eles o almoço do dia 25.

Não sei se é herança genética, mas realmente não sou fã da alegria, do amor, nem da oração com data marcada. O Natal é só uma data. O amor, a presença e a fé nos outros 364 dias é o que realmente conta. No fundo, todos sentimos uma certa culpa. Mais do que feliz Natal, feliz todo dia pra nós.

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