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Luis Fernando Verissimo
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In Aleppo

Alepo, a maior cidade da Síria, tem estado no noticiário internacional como um eixo do carrossel de terror que roda na região, com turcos atacando curdos, tropas sírias e o Estado Islâmico, este atacando os turcos, os curdos e tropas sírias, tropas sírias atacando os turcos, os curdos e o Estado Islâmico e ninguém se entendendo. Leitores de Shakespeare se lembrarão que na peça Otelo, depois de matar Desdêmona, o mouro pede para lembrarem que em Alepo, um dia (“that in Aleppo once”), um ser maligno (ele mesmo) “que amou não sabiamente, mas demais”, pegou pelo pescoço o “cão circuncidado” e o golpeou, “assim” – e Otelo se mata.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2016 | 02h00

Vladimir Nabokov, cuja obra é polvilhada de citações de Shakespeare, escancaradas ou sutis, deu o título In Aleppo Once a um conto sobre ciúmes e desentendimentos, como a tragédia de Otelo, convencido por Iago que a doce e fiel Desdêmona o trai. Até hoje se discute a motivação de Iago para montar a intriga mortal. Apenas uma maldade gratuita de um dos piores caracteres de toda a literatura, ciúmes da virtuosa Desdêmona ou – uma especulação moderna – amor homossexual por Otelo?

Nabokov se deliciou ao descobrir que Shakespeare, que também era ator, tinha feito o papel do fantasma do pai de Hamlet no palco do teatro Globe. O papel é pequeno, mas essencial na trama, sem ele e sem seu clamor por vingança não haveria a peça. E é o fantasma que se despede de Hamlet antes de desaparecer na bruma, dizendo “Adieu, adieu, adieu. Remember me, remember me...”. Poderia ser o autor falando pela boca do ator, pedindo para se lembrarem dele.

E Shakespeare não foi esquecido nos 400 anos que nos separam da primeira encenação de Hamlet. Volta e meia surge uma adaptação nova de uma peça dele. Grandes escritores se renderam ao seu sortilégio – Nabokov, talvez, mais do que todos. James Joyce dedica um capítulo inteiro do seu Ulysses a Shakespeare e o seu legado literário. “Remember me, remember me.” Em Alepo, há 400 anos, foi a mesma súplica de um triste mouro, que amou não sabiamente, mas demais.

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